Teoria e Prática
O que é meditar
A meditação está em foco na atualidade. Pesquisas em várias áreas de saúde e qualidade de vida constataram benefícios em seus praticantes a médio e longo prazo. Por esse motivo, é recomendada por Instituições famosas como University de Wisconsin, Massachusetts General Hospital, American Journal of Cardiology, Cedars-Sinai Medical Center of Los Angels. Assim, medita-se hoje para buscar alívio da ansiedade, da depressão, da dor física; para baixar a pressão sanguínea e a taxa de glicose no sangue; para aumentar o poder de concentração e atenção. De fato, é uma prática acessível para idosos ou jovens, para convalescentes ou estudantes que se preparam para prestar exames e concursos. É útil para qualquer pessoa que deseja encarar o stress do cotidiano com tranqüilidade ou artistas que desejam expandir o próprio talento.

Não há dúvidas sobre os efeitos compensadores da meditação sobre o indivíduo. Afinal, todos querem viver melhor, evitar o sofrimento, ser felizes.

Entretanto, seus benefícios não se restringem às compensações imediatas e nem se limitam ao individuo. A meditação é muito mais que uma técnica de auto-ajuda, de treinamento disciplinar para cultivar pensamentos positivos. Seus efeitos são profundos e duradouros e de repercussão ampla, contribuindo para a paz e harmonia social.

O que é meditar, afinal?

O filólogo Antonio Houaiss define o verbo meditar como "preparar alguma coisa, amadurecendo-a longamente". Que coisa?

Essa "coisa" a ser amadurecida é a nossa mente em transformação, que é preparada para o despertar da clara compreensão do nosso próprio ser e da natureza do mundo em que vivemos. Quando entendemos e aceitamos os princípios que regem o universo para compatibilizar e integrar o nosso ser, podemos aceitar a felicidade como realidade.

Outra definição de Houaiss do ato de meditar é "estudar o pensamento, a maneira, o aspecto, o conteúdo de ... ". Então, podemos dizer que meditar é estudar o pensamento, a maneira, o aspecto, o conteúdo da vida para poder vivê-la plenamente, sentirmo-nos mais plenos de vida e na vida, enfim, verdadeiramente mais felizes.

Como diz um famoso monge japonês, Rennyo Shonin (1415-1499):
"Contemplando cuidadosamente a condição flutuante da vida humana, vejo que, do início ao fim, esta vida se esvanece qual uma miragem. Nunca soube de alguém que tivesse vivido dez mil anos. Como é fugaz esta vida! Quantos neste mundo chegam a viver cem anos? Os que ficam, os que vão, todos partem mais célere que as gotas de orvalho caindo, das folhas às raízes".

Assim, a meditação, como a aplicação deliberada de ordenamento mental e comportamental para a própria transformação, é praticada milenarmente nos mosteiros e templos e parecia ser privilégio de seres especiais como monges e ascetas. Foi Sidarta Gautama - Buda Sakyamuni, o iniciador do budismo - que a colocou à disposição de qualquer um que assumisse o mínimo de disciplina para seguir o Caminho do Meio da Senda Óctupla.

Mas não é preciso ser ou se considerar budista para praticar a meditação. Basta entender que ela tem a função de nos acordar para a clara compreensão da natureza impermanente, interdependente e causal do mundo em que vivemos, sendo uma metodologia prática para tomar consciência do próprio processo mental e que está disponível para todos aqueles que querem sentir-se mais plenos de vida e na vida.

Entretanto, podemos aproveitar melhor o treinamento meditativo, sabendo o que é a Senda Óctupla do caminho budista.

A Senda Óctupla é a quarta das Quatro Nobres Verdades que consistiu na primeira prédica do Buda após o seu despertar, a sua iluminação. Lembremos que Buda Sakyamuni era o príncipe do reinado dos sakyas na Índia, há mais ou menos 2.500 anos, e abandonou o palácio imperial aos 29 anos para buscar respostas e soluções ao sofrimento humano. Não obstante ter sido um grande iogue, o seu despertar significa ter encontrado soluções à disposição de todos e não só para os ascetas e virtuosos.

A Primeira Nobre Verdade dukkha é enunciada tradicionalmente como "A vida é sofrimento", o que suscita interpretações errôneas como se todo budista aceitasse e gostasse de sofrer. O que Buda disse é que devemos sentir a vida como ela é, nas suas dores e prazeres, e ir até o fim sem fugir dela ou fazer de conta que a ignoramos. Isso exige muita coragem que só a compaixão budista nos propicia.

A Segunda Nobre Verdade samudaya diz "Todo sofrimento tem suas causas" que é um convite para investigar a verdade que está dentro de nós e a verdade que está ao nosso redor, depois de ter a coragem de sentir a vida como ela é. Essa investigação requer muita lucidez que só a sabedoria búdica (A Luz) nos dá.

A Terceira Nobre Verdade nirodha afirma que "O estado de perfeita felicidade existe". A felicidade, entendida como desejo da individualidade mundana, é difícil de ser alcançada pelas dificuldades, barreiras e bloqueios que o próprio ego constitui e constrói. Porém, se a considerarmos como vontade geral, ela deixa de ser um anseio individual, egoísta, para ser uma Vontade Divina, o Voto do Buda, disponível a todos, igualmente.

A Quarta Nobre magga é a Senda Óctupla. Ela fala em atenção plena, esforço e concentração, primariamente desenvolvidos na meditação como técnicas disciplinares da mente e de comportamento. Mas é pouco. Aqueles que persistem na meditação podem ter o infinito potencial da sua mente aproveitado para as cinco outras dimensões da vida, na experiência direta da visão, pensamento, palavra, ação e modo de ser e viver feliz.

Isso é meditação.