Vida do Buddha Sakyamuni

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A concepção

 

O Buda histórico nasceu no norte da Índia, no século VI antes da era cristã, numa região que hoje pertence ao Nepal, Kapilavastu.

O pai, que se chamava Sudhodana, era governante-rei do clã dos Sakyas.  Diz a lenda que a rainha Maya, durante o Festival de Verão, recolheu-se aos seus aposentos para repousar e sonhou que quatro seres celestiais conduziram-na para a cordilheira do Himalaia, onde recebeu vestes divinas para assistir a concepção do próprio filho.

Sendo informado do sonho, o rei pediu que os eruditos da corte o interpretassem.  Sete sábios explicaram que a rainha daria luz a um filho que, se optasse pela vida laica, tornaria-se um grande monarca-guerreiro, mas, se escolhesse abandonar a vida mundana, tornaria-se o Buda e revelaria a Verdade.

 

O nascimento e juventude

 

Dez meses lunares depois, durante a viagem para a casa de seus pais para dar à luz, como era costume na época, a rainha parou para descansar num bosque de árvores Ashoka, quando nasce o príncipe.  No quinto dia após o nascimento, o rei volta a reunir os eruditos da corte para dar um nome à criança, que é chamada de Sidarta “aquele que realizou sua meta”.  O rei indagou aos sábios o que faria seu filho renunciar ao mundo e a resposta foi: “os quatro sinais, respectivamente, um homem decrépito, uma pessoa doente, um morto e um monge”.  Disposto a fazer do filho sucessor como monarca-guerreiro, o rei resolveu cercar o palácio imperial de altas muralhas e impedir a entrada de qualquer pessoa que correspondesse àquelas descrições.
Sete dias após o nascimento de Sidarta, a rainha Maya faleceu e a tutela do príncipe coube à irmã dela, Mahaprajapati.

O príncipe cresceu em meio à riqueza e ao conforto, cercado de todo prazer, da arte à comida.  Entretanto, não descuidava do preparo físico de guerreiro, tendo conquistado sua noiva, Yashodara, numa competição de arco e flecha.

Mas ele vivia insatisfeito, sentia tédio e ansiedade dentro das muralhas do palácio. Pede ao pai para visitar o mundo lá fora e o rei, sem poder aplacar a inquietude do filho, ordena a restauração e limpeza da cidade e dos arredores assim como a retirada de todos os idosos e enfermos das ruas.

Na primeira incursão extra-muros, apesar dos cuidados do rei, Sidarta defronta-se com um velho decrépito e trêmulo e se assusta.  Channa, seu fiel escudeiro, esclarece que se trata da velhice, o caminho natural da vida. Um dia, o vigor e a juventude acabam, e mesmo o príncipe, jovem e boniito, envelhecerá. De volta ao palácio, o rei ordenou imediatamente que providenciassem muito divertimento para alegrar o coração abalado do filho-herdeiro querido.

Algum tempo depois, ao visitar um parque, o príncipe vê um homem com o corpo todo em chagas, horrível, como nunca tinha visto.  Em outra ocasião, não entende porque as pessoas choram tanto diante de um corpo imóvel, e Channa diz ser a morte, o fim inexorável de toda vida humana.

Nada mais o divertia nem espairecia, apesar dos cuidados do preocupado pai, da gentil madrasta e amorosa mulher.    Refletia profundamente sobre o destino de todos os seres.  Cada um de nós, pensou ele, está sujeito à doença, à velhice e à morte.  Entretanto, olhando em torno de si, as pessoas riam, dançavam, bebiam, comiam, distraíam-se alegremente, como se o destino final para o qual se encaminhavam não existisse, mesmo o seu filho Rahula que acabara de nascer.

A partida para a verdade da vida

 

“Todos os seres humanos hão de morrer”, ele exclamou internamente.  Reconhece, nesse momento, a vida de sofrimento como o maior dos problemas humanos. Quando estava solitário e pensativo no jardim, um asceta se aproximou como que surgido do nada, dirige-se a ele para desaparecer em seguida:

“Ó Grande Ser, tendo-me aterrorizado com o nascimento e a morte, tornei-me um asceta em busca da libertação da destruição, das paixões.  Habito a floresta ou a montanha, sem esperança ou temor, busco o reino indestrutível, isolo-me da humanidade, domino os sentidos.  Almejo nada além do mais elevado bem”.   

Impressionado, mas determinado a buscar solução para o sofrimento humano, resolve viver como um asceta na floresta.

Sela seu cavalo Kantaka, escapa do palácio junto com Channa e cavalga uma noite toda até chegar às margens do rio Anoma.  Corta seu tufo de cabelos, junta-o ao diadema real, tira as roupas luxuosas, joga tudo para o alto e manda que Channa – relutante, querendo acompanhá-lo – parta e o deixe sozinho.

Na sua árida peregrinação, Sidarta encontra dois mestres eminentes Alara e Udaka, que o instruíram em filosofia e meditação. Num primeiro momento, ele se dedica à prática severa da ascese, como se a extrema autonegação pudesse aproximá-lo da cura do sofrimento. Grande disciplina, força de vontade e talento reflexivo fizeram-no chegar logo ao nível do grandes iogues. Convenceu-se, porém, de que aqueles métodos não o conduziriam à iluminação, à solução definitiva do sofrimento humano.

Ele se dedica com afinco às práticas ascéticas de austeridade e granjeia seguidores cheios de admiração por ter se desapegado da  vida de príncipe poderoso.  Chamam-no de Sakyamuni, o “sábio do clã dos Sakyas”.  Seis anos passaram, jejuns prolongados o deixaram extremamente magro, sua pele exposta às intempéries adquirira uma tonalidade escura e as pessoas, ao vê-lo deitado e imóvel, davam-no como morto.

 

A renúncia à ascese

 

Estava quase para morrer, o corpo arrastado pela correnteza do rio, quando Sujata, a simples e gentil jovem camponesa, o chama para a margem e  lhe oferece uma tigela de arroz doce com leite.

Ele se deixa abrigar na bondade amorosa da camponesa e aceita o manjar branco.  Nesse momento, abandona os exagerosda austeridade acética da sede, fome e exaustão que não lhe haviam revelado a verdade da existência humana.

Diante disso, seus discípulos, que já o chamavam de Sakyamuni, resolvem abandoná-lo. Não aceitaram a aparente fraqueza do príncipe e viram nela um retorno à vida mundana.

Ao permanecer em Uruvela, com roupas limpas e hábitos de vida simples, Sidarta logo recuperou a saúde.  Uma tarde, sentou-se em posição de lótus sob a árvore bodhi e fez o voto de atingir o despertar para a iluminação, determinado a só se levantar quando o conseguisse

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A iluminação



Essa determinação assusta Mara, a divindade do mal.  Ao vê-lo se livrar do orgulho e do desejo, empregou todas as suas artimanhas para impedir que atingisse a Iluminação.  A lenda diz que Mara chegou a enviar suas duas filhas belíssimas, a fim de tentá-lo sensorialmente e interromper a sua determinação.  Contudo, nenhum mal o atingia, pois, além de se livrar do orgulho e do desejo, estavaimune ao medo e à dúvida.

Mara se retira.  Sidarta entra em profunda meditação e o mundo se aquieta.  Ele contemplou a natureza da existência e percebeu que o sofrimento surge da ignorância do ego e pode ser superado.  Refletiu sobre isso por diferentes ângulos três vezes antes que o amanhecer clareasse o céu.  Sua sabedoria faz entender que muitos permanecem apegados aos cegos hábitos mentais do ego, mas a sua profunda compaixão por todos os seres o levou a abandonar o estado de felicidade permanente que alcançara, para guiar todos pelo Caminho da Verdade.

O Grande Ser, Sakyamuni, o Sábio dos Sakyas, torna-se Buda, isto é, O Desperto, O Iluminado.

 

A primeira pregação

 

Ele viaja até Benares e vai ao Parque das Gazelas, à procura dos cinco eremitas que tinham sido seus companheiros de severas práticas ascéticas.  Eles o haviam renegado, quando Sidarta decidiu abandonar o ascetismo.  Recebem-no mal, à exceção do Kaundinya. Buda Sakyamuni se impõe e passa a ser tratado como um Tathagata, simplesmente como aquele que vem do que é tal como é e vai para ou chega ao tal como é.   E fala das Quatro Nobres Verdades: dukkha – o sofrimento da existência; samudaya – as causas do sofrimento; nirodha – a felicidade ou a cessação do sofrimento e marga – o caminho da Senda Óctupla.

Os cinco ex-discípulos não se convencem imediatamente e alguns o hostilizam.  Louve-se a sua lealdade e coragem em procurá-los em primeiro lugar.  A começar por Kaundinya, eles começam a entender um a um, até o último que levou mais algum tempo.  Todos voltam a aceitá-lo como mestre.  Aí está o simbolismo da determinação, tolerância e aceitação da diversidade na prática budista.

Nessa época Sakyamuni tinha trinta e cinco anos.  Viajou pelo país até os oitenta anos, ensinando tanto os ricos e poderosos como os pobres e humildes, a fim de atender suas necessidades espirituais, sem antes deixar de satisfazer a sede e a fome imediatas daqueles que o procuravam.  Oferecia descanso antes de instruí-los e exortava que ninguém seguisse seu ensinamento sem a devida compreensão e convencimento.  Fazia desacreditar as superstições, desestimulava a demonstração de milagres e sempre se recusou recorrer a curas mágicas.  Desencorajava conversas vazias, discussões fúteis e deixava de responder a questionamentos que considerava irrelevantes ou apenas provocativos, sem efeito prático.

Na maioria das vezes, acompanhado pelo primo fiel Ananda, peregrinou com discípulos por quarenta e cinco anos, especialmente nas estações secas.  Nas estações chuvosas, permanecia com os seguidores nos abrigos que passaram a se denominar vihara,

preparando e proferindo discursos, cuja demonstração de compaixão e sabedoria está registrada nos sutras ao longo de vinte e cinco séculos.

A partida para o parinirvana

 

Aos oitenta anos, ao sentir a vida chegar ao fim, chama os discípulos para as últimas exortações sobre o processo de aprender, praticar, aperfeiçoar e difundir os ensinamentos sobre a verdade da existência a todos os seres, a partir da da experiência direta.  Um dia, após uma refeição, sente-se muito mal.  Todos os seres sencientes, incluindo os animais, aproximam-se dele e lamentam a separação.  Ananda, que chora copiosamente, é aconselhado a não se apegar a coisas impermanentes como a vida humana e sim ao darma.  Consta que suas últimas palavras foram:

“Ó monges, neste momento digo que o fim é inerente a todas as coisas.  Sejam diligentes no esforço para a libertação.”

Ele entrou na paz eterna, o parinirvana, após viver na plenitude essa vida plena.