Quatro Nobres Verdades

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Para começar, muitos acham que o budismo é pessimista, e isto vem da noção precipitada da Primeira Nobre Verdade em que Buda proclama que a vida é Dukkha, normalmente traduzido como “sofrimento e dor”.  Entretanto, se ouvirmos atentamente e examinarmos com cuidados as outras três Nobres Verdades – Samudaya, o surgimento ou a origem de dukkha, Nirodha, a cessação de dukkha e Magga, o caminho que conduz à cessação de dukkha – vê- se que essa compreensão é equivocada.

Os estudiosos da Índia como o hinduísta Heinrich Zimmer afirmam que o pensamento indiano sustenta a idéia básica de que tudo está bem.  Na Índia, fundamentalmente, prevalece um otimismo supremo em todas as partes e o budismo surgiu neste meio.

 

Dukkha: A Primeira Nobre Verdade

 

Admite-se que o termo dukkha na Primeira Nobre Verdade contém, obviamente, o sentido comum de ‘sofrimento’, mas, além disso, também inclui, de uma forma mais precisa, o sentido de ‘imperfeição’, ‘impermanência’, ‘vacuidade’, ‘insubstancialidade’. É difícil, portanto, encontrar uma tradução que compreenda a concepção plena do termo dukkha como a Primeira Nobre Verdade.

Todos nós passamos por sofrimento e o mais óbvio é o sofrimento físico. Ninguém deixa de experimentar os seis tipos de sofrimentos que estão na raiz daquelas emoções negativas que flutuam pela nossa mente.  Inevitável pois decorrem da natureza mesma da nossa forma física e social de vida.

Os seis sofrimentos naturais  

Os quatro sofrimentos inerentes à natureza da nossa forma física são:

  1. Sofrimento do nascimento
  2. Sofrimento do crescimento
  3. Sofrimento do envelhecimento
  4. Sofrimento da morte

E dois sofrimentos inerentes à natureza da nossa convivência social:

  1. Sofrimento do amor
  2. Sofrimento do desamor

O próprio Sidarta Gautama, bem nascido e sadio, amado e estimado, com o futuro garantido no reinado do seu pai, ainda assim vivia angustiado, impregnado por esses tipos de sofrimento e, um dia, decide ir atrás de soluções ou respostas, por ele e pelos outros.  E se encontra com o caminho que não é pessimista nem conformista,mas natural, realista, que não desconhece nem despreza a felicidade.  Fala no aproveitamento pleno da vida, sem depreciar momentos de felicidade tanto na vida familiar como de reclusão, felicidade do prazer dos sentidos e da renúncia, felicidade do apego e desapego, felicidade física e mental.

 

Samudaya: A Segunda Nobre Verdade

 

A Segunda Nobre Verdade – Samudaya –  fala em Dukkha como resultado de causas e condições que decorrem da própria natureza do ser humano e da natureza do mundo.  Todo sofrimento tem uma causa e é resultado de causas e condições que atuam juntas. Tudo na vida tem explicação, mesmo que não tenhamos controle absoluto sobre ela.

 

Nirodha: A Terceira Nobre Verdade

 

É neste sentido que a Terceira Nobre Verdade – Nirodha – fala da cessação do Dukkha, da perfeita possibilidade de extinguir as causas do sofrimento e alcançar a felicidade ou agir sobre as suas condições de manutenção ou desenvolvimento.

A felicidade é possível

A verdadeira felicidade é ter a consciência da felicidade para agir.  É ter a consciência de que, mesmo os momentos espirituais atingidos pela prática meditativa elevada, em que nos livramos de qualquer sombra de sofrimento, o despertar budista, são impermanentes e sujeitos a mudanças.  É ter a consciência de que, a manutenção de estados emocionais de serenidade e paz que a meditação nos propicia, depende de outros seres, da interdependência e inter-vivência de todos os seres.  É ter a consciência de que aquela perfeição da pureza, o estado livre de sensações tanto agradáveis quanto desagradáveis que podemos alcançar com a persistência da meditação, pode se dissolver na insubstancialidade.

Em outras palavras, tomar consciência na vida mundana da atração do ego pelo desejo ou prazer, saber do perigo ou das suas conseqüências maléficas ou da insatisfação frustrante e, apesar disso, ter a liberdade ou libertar-se da atitude dicotômica de fazer ou não fazer, assumindo a responsabilidade tanto no pensamento, como na ação ou em palavras.

 

Maggha: A Quarta Nobre Verdade

 

A Quarta Nobre Verdade – Magga – constituída de oito ramos é também chamada de Caminho Óctuplo ou Caminho do Meio para a Felicidade.

Os Oito Ramos do Caminho Nobre – compreensão ou visão da vida, pensamento, fala, ação, forma de vida, esforço, atenção e concentração – são a própria representação da nossa vida integrada por essas oito atitudes interdependentes.  Não há nenhum ramo independente ou que prevaleça, pois cada um contém em si todos os outros, a vida de cada um de nós é uma composição desses tipos de prática ou comportamento.

Para efeitos ilustrativos Os Oito Ramos podem ser apresentados em três categorias: (a) como conduta ética voltada para a compaixão: fala correta, ação correta e modo de vida correto; (b) como treinamento em disciplinamento mental: esforço correto, atenção correta e concentração correta; (c) como aperfeiçoamento da sabedoria: compreensão ou visão correta e pensamento correto.  Importante é “compreendê-los” como o caminho para a realização da completa liberdade, felicidade e equanimidade que passa pelo aprimoramento de todas as dimensões do ser humano.

O sentido do Caminho do Meio 

Quando ouvimos a expressão Caminho do Meio, pensamos imediatamente num equilibrista em cima do muro, seja do bem-estar ou de nunca assumir uma posição na vida, sempre desequilibrando-se na próprio esforço individualista (jiriki, em japonês) ou receoso de cair nos extremos da indulgência ou da ascese.

Se quisermos visualizar o Caminho do Meio, podemos vê-lo situado a meio caminho entre o céu e a terra, como é representado simbolicamente o nascimento do Buda.  Ou, na parábola do Mestre chinês, Shan Tao, nós, seres humanos somos perseguidos por animais ferozes e bandidos brutos, tendo que trilhar o estreito caminho que nos leva do samsara mundano ao nirvana transcendental.  Equilíbrio extremante difícil,  do lado direito do estreito caminho, turbilhão de águas do desejo e cobiça e, do lado esquerdo, labaredas de fogo da própria raiva e ignorância.

É, ainda, conseguir viver bem no meio dos Doze Elos da Origem Interdependente – a nossa existência condicionada que compõe o próprio carma – e não fora dele.  Como disse o Buda:

O que chamo de carma é volição. Tendo vontade, age-se através do corpo, da fala e da mente. Volição é construção mental, atividade mental. Sua função é dirigir a mente na esfera  das atividades boas, más ou neutras.