As 3 marcas da existência

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Impermanência, Interdependência e Insubstancialidade

   

O princípio da impermanência

O principio natural da impermanência simplesmente diz que tudo, que coisas, seres, fenômenos mudam, nada é estável e permanente.  Algumas coisas duram um instante, outras, um longo tempo, mas tudo muda.  Uma pedra, uma montanha, uma cordilheira, pode durar mais, porém, sempre em mutação.  Até o sertão vira mar, está provado que sertão do Brasil já foi mar.  Na vida mundana, ao longo de setenta, oitenta, noventa, hoje, cem anos, não só nosso corpo e mente como todas as coisas estão em permanente mudança.  Sofremos ao ignorar esse principio, querendo que o que é bom e prazeroso permaneça assim daqui para frente.  Ou, o que é ruim e sofremos, vai ser assim para sempre. O mundo está em fluxo continuo e é impermanente, o que significa transcender o ciclo físico de nascimentos e mortes.

O principio da interdependência

A interdependência vertical e horizontal também é naturalmente clara. Verticalmente, dependemos de todos os nossos antepassados, a começar pelos pais, deles dos seus pais e assim para trás, até a origem da humanidade.  Horizontalmente, é fácil perceber que é impossível vivermos sem dependermos de todo os demais seres que nos suprem de alimentos, serviços e sentimentos.  Aceitamos a inter-vivência de todos os seres, rendemos homenagem e prestamos agradecimento até aos seres vegetais e animais que doaram e doam suas vidas para tornar possível a nossa sobrevivência como humanidade.

Assim, a independência individual que o ego tanto reclama é uma ilusão, a liberdade individual e acessibilidade geral que dispomos hoje não resolve essa situação: não adianta, por exemplo, querer amar alguém se esse alguém não me ama ou não quer me amar, isso resulta em ciúme, vergonha ou rancor.  Além disso, para o budismo a interdependência da nossa vida não é apenas vertical e horizontal, mas nas dez direções, é transcendental.  Por exemplo, o amor ou ódio entre duas pessoas não dependem só da boa vontade, interesse ou sentimento de afeto dos dois, da formação cultural de cada um, mas da respectiva formação mental, com fatores que transcendem as formas este mundo.

O princípio da insubstancialidade

A insubstancialidade é um principio que era apresentado de forma bonita mas etérea, mencionando a nossa vida do ser e do não ser, o mundo da forma e da não-forma, a vacuidade como o não sofrimento, a felicidade a perder-se no vazio, o não-eu em que podemos ser tudo num momento e ser nada no outro.

A ciência moderna torna mais claro esse principio natural, fundamentado na composição molecular que forma a substancia da vida.  Somos um composto químico-orgânico de elementos naturais presentes no nosso organismo como cálcio, ácido, magnésio, potássio, sódio, etc., que formam a bipolaridade corpo e mente e o processo de combinação de pensamentos, sentimentos e emoções do nosso ego.

O que achamos que é o ser integral de nossa personalidade – o eu – pode transformar-se gradual ou subitamente para o bem ou para o mal e isto não acontece somente em função da mudança da composição química molecular do organismo provocada pela simples ingestão de drogas – alucinógenos, anfetaminas ou remédios – ou contaminação de valores e convenções sociais flutuantes.

Isto que dizer que, substancialmente, não somos absolutamente bons ou absolutamente maus, os dois traços convivem naturalmente dentro do nosso ser.  Somos médicos e monstros ao mesmo tempo e, assim, não podemos estar sempre a culpar a maldade dos outros pelos males do mundo e vangloriar-se das boas intenções das nossas bondades.   Num momento, a nossa escolha ou opção pode não ser racional, sábia ou compassiva, levada pelas causas e condições que transcendem a própria natureza ou a natureza da sociedade.  Ou, para seguir a própria natureza, sem disfarces civilizatórios.