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Fukushima: o livre-arbítrio humano e a energia nuclear

  

(Artigo publicado no Correio Braziliense,
por ocasião do 1 ano do acidente nuclear em Fusushima)

 

No dia 11 de março de 2011, o mundo tomou conhecimento do tsunami que invadiu a costa nordeste de Japão, atingindo a usina nuclear de Fukushima.  Estarrecidos, assistimos pela televisão ondas enormes de lama cobrindo prédios, arrastando casas, carregando embarcações e carros, engolindo tudo.

O epicentro do terremoto que provocou o tsunami de mais de 10 metros de altura foi a 130 km da costa e foi medido em  8,9 graus escala Richter, um dos mais altos que se tem conhecimento.  Além de 13.300 mortos confirmados e 16.000 desaparecidos, houve rompimento de barragens, incêndios, destruição de plantações, florestas, rodovias, ferrovias, redes de água que afetou imediatamente 1,4 milhões de pessoas e do sistema elétrico que deixou 4,4 milhões de pessoas sem luz.

A ansiedade do mundo solidário com as vítimas da tragédia e suas famílias em luto  transformou-se em admiração ao assistir o espírito comunitário do povo japonês, organizado, disciplinado e dedicado no trabalho coletivo de recuperação e ajuda mútua.   Mas, a angústia do vazamento radiativo da usina nuclear continua.

O dique de 5,7 metros de altura não foi suficiente para proteger os reatores atômicos instalados  em Fukushima que sofreram sérias avarias: explosões e incêndios provocaram o superaquecimento das piscinas de combustível irradiado e os reatores fundiram.

Como esclareceu o cientista atômico Joaquim Francisco de Carvalho: “Os acidentes nucleares têm dimensões que os outros não têm pois se propagam pelo espaço – continentes inteiros – e pelo tempo – décadas, senão séculos.  Um acidente em central nuclear apenas começa no instante e no local em que ocorre“.  De fato, como em Chernobyl, crianças podem nascer com aberrações cromossômicas e desenvolver  leucemia e outras desordens endócrinas e imunológicas, certamente provocadas pela absorção por seus genitores de doses de radiação.

Em Fukushima, as autoridades evacuaram 3 mil moradores num raio de 3 km em caráter de urgência e logo em seguida 45 mil num raio de 10 km, logo aumentado para 20 km.  Mas, e a poeira  atômica que vai sendo levada longe pelo ar e se depositando no gramado do jardim das casas, no pátio das escolas ou retornando ao solo como chuva a molhar as verduras?  E o vazamento da água radioativa que chegando ao mar, é tragado pelos peixes?

Estive em Fukushima dois meses após a tragédia.  Tenho ido ao Japão quase todo ano desde 1966 e pude acompanhar o esforço de recuperação dos danos da guerra e de rápido crescimento econômico impulsionado pelo avanço tecnológico, organização social e caráter dedicado do povo japonês.  Era natural que isso denotasse certo orgulho e vaidade.  No ano passado, pela primeira vez senti perplexidade e reflexão.

A lição involuntária e não desejada que o Japão está passando ao mundo é muito séria.  Em se tratando de um dos países mais ricos do mundo, os equipamentos e edifícios públicos podem ser reconstruídos e as perdas particulares indenizadas.  Com sua longa tradição cívica e cultural, o povo japonês mostrou ao mundo grande senso de ética social, solidariedade e disciplina.

Entretanto, o monge budista Yoshihiko Tonohira que esteve no Fórum Social Mundial e convidado a dar uma palestra no Templo Budista de Brasília afirmou: “Tenho a convicção de que a convivência da humanidade com a energia nuclear é incompatível“.   Não estava questionando tecnicamente a energia nuclear mas, como budista, chamando atenção para a fragilidade do livre arbítrio humano que pode fugir do controle da boa consciência.  E falava não com raiva pelos antecedentes de Hiroshima e Nagasaki mas de coração partido pois vinha recebendo na sua pequena cidade no interior da província de Hokkaido, no extremo norte do Japão, os refugiados da tragédia que não paravam de chegar.

Por outro lado, o cristão Chico Whitaker, um dos organizadores do Projeto Ficha Limpa, idealizador do Fórum Social Mundial, ganhador do Premio Nobel Alternativo por sua luta incessante a favor da Justiça Social, no texto que apresentou especialmente ao Conselho Episcopal Pastoral da Católico da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), disse sobre a questão: “O desastre ocorrido no Japão como que despertou o mundo para a questão nuclear.  Foi como se Deus nos tivesse enviado um recado a nós, pobres seres humanos: cuidado com a tentação de se considerarem deuses…

Essa reflexão vale para todos, sejam religiosos ou não.  A questão não deve ser discutida somente do ponto vista técnico, cientifico ou econômico mas essencialmente humano.   Ou melhor, as repercussões do técnico, cientifico e econômico sobre o humano.