Blog do Monge

Não sei se vocês leram os comentários do último post. Como já falei antes, sempre leio e medito muito sobre o que vocês falam. Ana Cristina, uma presença marcante da nossa sanga, fala em “respirar a realidade”.  Ela é uma das tutoras mais ativas da meditação e tem consciência de que a respiração nos ajuda a reconhecer e ir às causas do nosso sofrimento. Aspiramos à genuína felicidade no momento que respiramos com atenção plena.

 

A respiração tem esse significado na nossa meditação cantada.  A maioria das pessoas estranha quando se depara com o texto em japonês (embora romanizado) e a métrica não-ocidental do canto Shoshinge.  Sem a respiração correta, é impossível recitarmos esses versos.  E a última sílaba de cada verso é alongada para esgotarmos a nossa respiração e automaticamente voltarmos à inspiração.

 

Isso vai regularizando as nossas emoções, os nossos pensamentos e sentimentos, tornando a nossa mente mais pura, mais ampla e amorosa.  Costumo dizer que o nosso encontro com a luz e vida infinitas do Buda Amida começa na respiração junto com a recitação do seu nome: Namandabu, Namandabu, Namandabu. A nossa mente repleta dos três venenos– apego, ira e ignorância – funde-se à natureza búdica da compaixão e sabedoria. De uma forma natural, como diz Ana, “respirando a realidade” vamos sentindo a luz do Buda e nos expandindo para viver plenamente essa vida.


Venham, conheçam e experimentem.

 

E se quiserem começar, vão à parte de meditação cantada no site.


Ilustração: Joan Vennum, River Quartet, 2008. Oil on canvas. Publicada na Tricycle Magazine.



Publicado por: Monge Sato

A impermanência é um dos ensinamentos mais bonitos do Budismo. Por que digo que ele é bonito? Porque se manifesta como objeto de percepção no que olhamos, escutamos, tocamos, cheiramos, provamos, compreendemos. Por ser  ensinamento direto, precisamos alimentá-lo todos os dias. Se pensarmos na impermanência apenas como algo fora de nós, ou que não tem nada a ver com a nossa vida, sofreremos quando as coisas mudarem.

 

Não temos dificuldade em perceber como tudo à nossa volta e nós mesmos estamos em permanente transformação. Toda semana, aqui no Templo, colocamos vasos de flores no altar do Buda. Um arranjo lindo e exuberante que nessa época de baixa umidade mal dura uma semana! Não devemos achar isso ruim. O aprendizado de olhar as flores murcharem nos faz progressivamente apreciar melhor sua beleza e aceitar quando elas não estão mais lá. Isso vai se constituir pouco a pouco numa maneira de enxergar a vida.

 

Também nessa época de secura em Brasília, somos presenteados com o belo espetáculo de floração dos ipês: primeiro, o rosa; depois, o amarelo; por fim, o branco. Buda está em todo lugar e na natureza podemos perceber de forma viva a sua presença. Todas aquelas flores em pouquíssimo tempo murcham e a bonita árvore dá lugar a um amontoado de galhos nus. As flores murchas no chão vão servir de nutrição para a terra e outros seres. Não existe fim. Existe transformação e renovação da vida.

 

Assim falado de forma simples parece fácil aceitar. Mas a humanidade viveu e vive muitos momentos de ignorância por acreditar na permanência. Durante muito tempo, achamos que a terra era o centro do universo e plana. A cada dia, um alimento que era fonte de nutrição torna-se prejudicial à saúde. No planalto central, são descobertas reminiscências do mar: o sertão já foi mar, o mar já foi sertão. 

 

Precisamos nutrir a compreensão da impermanência também como algo que não está fora de nós. Uma imagem simples, que fala muito, é ficarmos à margem do rio, vendo a água passar.  Essa água passa, sobe pelo oceano e retorna à terra sob forma de chuva.  Há uma reciclagem dessa água que passa. Graças a isso podemos também transformar o sofrimento em alegria. A água passa e muda, porque nós mudamos e o que está à nossa volta também.

 

Mas não somos observadores dessa água que passa: somos a própria água renovada. Não nos imaginemos à margem da impermanência. Somos a impermanência, fazemos parte dela.  Nem sujeito nem objeto, nem eu nem outro, nem objetivo nem subjetivo.

 

Um ensinamento bonito e simples que nos faz lembrar a nossa unidade com o Buda e com a vida. Namo Amida Butsu.


 

 



Publicado por: Monge Sato

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