ensinamentos
PRINCÍPIOS BÁSICOS
JodoShinshu ou Shin Budismo da Terra Pura

Jodoshinshu ou Shin Budismo da Terra Pura significa "a verdadeira essência do ensinamento da Terra Pura".

O budismo surgiu na Índia e expandiu-se para o nordeste, chegou até a China e posteriormente à Coréia e ao Japão. A forma do budismo introduzida nesses países foi predominantemente Mahayana, conhecido por "Grande Veículo". Como outras escolas da Terra Pura, o Jodoshinshu de Shinran Shonin (1173-1263), o fundador do Budismo Shin, vem do Mahayana e compartilha os seus fundamentos com variadas escolas Mahayana, como a Zen e a Tibetana, que se tornaram populares no ocidente.

Shinran Shonin não queria fundar uma nova escola budista, mas simplesmente revelar a essência do ensinamento da Terra Pura, transmitido e desenvolvido pelos Sete Célebres Patriarcas ou Mestres da Índia, China e Japão. Após uma cuidadosa investigação, ele compilou um conjunto de preceitos citados nesses trabalhos, prescrições de sutras e comentários da Terra Pura, para formar um sistema coerente de ensinamentos sobre a libertação do ser humano do sofrimento.

Esse ramo da Escola da Terra Pura ficou amplamente conhecido como "Shin", desde que Daisetsu T. Suzuki utilizou a denominação. Apesar de celebrado como um expoente do Zen, Suzuki foi o grande responsável pela divulgação do Shin no Ocidente, por meio de artigos e outros trabalhos importantes, como a tradução dos quatro primeiros capítulos da obra magna de Shinran Shonin, o Kyogyoshinsho.

Princípios Básicos do Budismo

O budismo tem alguns princípios que precisam ser bem entendidos.

Primeiro, a teoria do carma, que significa "ação".

A Lei do Carma, genericamente aceita no pensamento hindu, é explicada com detalhes no budismo. De acordo com essa Lei, a nossa existência é um fluxo contínuo: o carma faz o presente reviver o passado e se repetir num futuro indefinido. A vida de alguém, portanto, não termina com a morte, mas será seguida por outra, só que numa forma diferente. Nosso destino no futuro estará determinado pela qualidade e quantidade de nossos atos virtuosos. De uma forma simples: o que somos é o resultado do que fizemos no passado e o que fazemos agora vai criar o nosso futuro. Por isso, no budismo, não se acredita em um Deus Criador, e sim num carma que inclui nossos pensamentos e palavras, responsável pelo nosso estado de existência.

Segundo, tal continuidade de nossa existência, chamada de samsara, é considerada dolorosa.

Mesmo que alguém tenha atingido um estado de existência superior, não existe garantia de que vai durar para sempre. Pode ser mesmo seguido pelo sofrimento no estado inferior. O budismo nos ensina o caminho da emancipação dos ciclos de nascimento e morte no samsara. Tal estado de libertação do sofrimento é conhecido por nirvana.

Terceiro, o Budismo não encoraja apenas os atos virtuosos.

A qualidade dos atos é importante. Entretanto, mesmo que nos esforcemos para isso, se os nossos atos forem egoístas, só produzirão um efeito limitado que não possibilitará alcançar o nirvana. Atos verdadeiramente virtuosos devem, portanto, ser livres de apego e essa condição só pode se dar através de intensa meditação.

Quarto, existem os princípios da originação dependente (pratitya-samutpada) e da vacuidade (shunyata).

O budismo Mahayana os resume da seguinte forma: todas as coisas existentes são mutuamente relacionadas e, por isso, não têm substância. Baseado nessa afirmação, o bodisatva procura cultivar os méritos sem se apegar a qualquer coisa, nem mesmo à sua natureza interior.

E, por último, os méritos puros obtidos pelos atos incondicionais de amor e compaixão se manifestam como corpos gloriosos dos budas e o esplendor das suas terras. Aqueles que compartilham e absorvem esses méritos podem rapidamente se libertar.

O Buda Amida

Todos os fundamentos práticos e doutrinários do Shin Budismo da Terra Pura estão centrados em um buda específico, o Buda Amida, que habita o paraíso situado a oeste chamado Terra da Perfeita Felicidade (Sukhavati) ou, mais popularmente, Terra Pura.

Amida é a leitura japonesa do chinês "O mi-t´o" - em sânscrito "Amita" - que significa o "Imensurável" ou "Infinito". "Amita" é interpretado como correlato a "Amita-Abha" (Luz Infinita) ou "Amita-Ayus" (Vida Infinita). Amida, portanto, é mais conhecido no Ocidente como Amitabha, o Buda da Luz Infinita, e também Amitayus, o Buda da Vida infinita.

Amida é o buda mais popular no Japão, talvez mais reverenciado que o fundador do budismo, Sakyamuni. Sendo um buda que transcende o espaço-tempo, Amida liberta todos aqueles que recitam seu Nome com fé sincera e abraça todos os seres com sua Luz, recebendo-os na sua Terra da Perfeita Felicidade. É acompanhado pelos bodisatvas Kannon (Kuan Yin, Avalokitesvara) e Seishi (Shih-chih, Mahastamaprapta). Estátuas de Amida ladeado por esses dois bodisatvas são encontradas em muitos templos no Japão.

As Três Escrituras Básicas

O budismo Mahayana enfatiza que todos possuem natureza búdica. Entretanto, só aqueles que tomaram consciência dessa natureza e procuraram concretizá-la são chamados de bodisatvas. Ao longo do caminho, eles formulam votos para realizar a mais alta sabedoria (bodhi) e livrar todos os seres sencientes do sofrimento. Assim, considera-se que, no universo, há inúmeros bodisatvas no caminho da realização da natureza búdica, bem como muitos budas que já completaram esse caminho.

Há três escrituras básicas originárias da Índia e Ásia Central que descrevem detalhadamente a história, a natureza essencial e a atividade libertadora do Buda Amida e as esplendorosas representações da sua Terra Pura. Falam também de como nascer na Terra Pura e alcançar a iluminação. Tais escrituras são o Sutra Maior, o Sutra da Contemplação e o Sutra do Amida.

O Décimo Oitavo Voto

O Sutra Maior é a mais longa e importante das três escrituras canônicas do Shin Budismo da Terra Pura, chamada de Sukhavativyuha em sânscrito.

Conforme essa escritura, Amida era um rei. Ao encontrar um buda, o Buda Lokesvararaja, cuja personalidade o impressionou profundamente, renunciou a tudo e se tornou um bodisatva com o nome de Darmakara, disposto a realizar sua natureza búdica e livrar os seres do sofrimento.

A seu pedido, Buda Lokesvararaja mostrou-lhe as gloriosas manifestações de vinte e um bilhões de terras dos budas, por extensíssimos cinco kalpas (aeons). Transpondo inumeráveis vidas, Darmakara meditou sobre a terra do buda que iria estabelecer no caminho de salvação dos seres que sofrem. Quando o plano da sua Terra e o método de salvação ficaram claros, ele os expressou em Quarenta e Oito Votos.

Os votos em si não se transformam em realidade. Para a sua concretização, são requeridos muitos feitos meritórios e o cultivo da sabedoria. Quando a sua sabedoria atingiu o mais alto nível e suas virtudes foram desenvolvidas plenamente, Darmakara se tornou um buda chamado Buda Amida. Seu supremo e ilimitado mérito tornou-se manifesto no seu Corpo iluminado majestosamente e na grandiosa Terra Pura.

De todos os votos o mais importante é o Décimo Oitavo Voto, no qual a recitação do Nome do Buda realizada com fé sincera, assegura a salvação de todos que a fazem. É o Voto Original que representa a integração entre Buda e o ser comum que compartilha dos méritos de Amida pela recitação do Nome - Namo Amida Butsu - credenciando-se a nascer na Terra Pura.

A segunda escritura é o Sutra da Contemplação.

Os budas e suas esferas de atividade estão além das nossas percepções e conceitos, e esse sutra nos propicia o método pelo qual se pode visualizar Amida e a sua Terra Pura com os olhos do espírito e da mente. Começando com a concentração focalizada no pôr-do-sol, há treze estágios de contemplação que culminam na visualização do seu próprio nascimento na Terra Pura do Buda Amida.

O objetivo dessa contemplação é tornar sua mente mais tranqüila e mais confiante, abrindo-a para simplesmente aceitar o esplendor, a grandiosidade, a beleza, o brilho, a superabundância da Terra da Paz e Perfeita Felicidade, a Terra Pura construída pelo Voto do Buda. Ao atingir essa visualização, o mau carma acumulado por eras cósmicas se extingue, livrando sua mente das garras da cobiça, da ira e da ignorância.

A terceira escritura, a mais curta, é o Sutra do Amida.

Ele recomenda exclusivamente a recitação do Nome do Buda com o coração puro durante um a sete dias para ir nascer na Terra Pura. Esse procedimento, chamado de nembutsu, está presente no Décimo Oitavo Voto como a prática essencial para alcançar o nascimento na Terra Pura. Promete a libertação do sofrimento de todos os seres que o praticam com fé sincera e profunda.

Nembutsu

Em toda história de desenvolvimento do Budismo da Terra Pura na Índia, na China e no Japão, a recitação do Nome de Amida foi a principal prática para atingir o nascimento na Terra Pura. Tal prática, conhecida por "nien-fo" em chinês, "buddha-anusmriti" em sânscrito e "nembutsu" em japonês, consiste em repetir a formula de seis caracteres: "na-mo-o-mi-to´o-fo" em chinês, "namo amida butsu" ou "namandabu" em japonês e significa, literalmente, "Tomo refúgio no Buda Amida".

No Sutra da Contemplação, depois das treze visualizações, nove tipos de aspirantes são distinguidos de acordo com as suas disposições morais e a gravidade de transgressões que cometeram. Para os que estão no nível inferior, os que cometeram graves ofensas, o Buda recomenda simplesmente recitar o Nome. De acordo com a lei do carma, cometer graves ofensas traria como resultado a repetição infinita dos ciclos de sofrimento. Entretanto, a enunciação do nembutsu é apresentada como o antídoto para o mau carma e torna possível a extinção do sofrimento com o nascimento na Terra Pura.

Comparada às práticas meditativas de visualização de Amida e da Terra Pura, a recitação do nembutsu é uma prática fácil que pode ser feita em qualquer lugar e a qualquer hora. Essa facilidade, entretanto, não significa que o nembutsu seja inferior ou faculta obter um mérito menor. Todos os grandes mestres da Terra Pura do passado, como o precursor Nagarjuna na Índia, Shan-Tao, na China, e Honen no Japão, ressaltaram a sua grande importância.

versão para o português do texto de Isao Hinagaki "Shinran and Jodoshinshu" http://www12.canvas.ne.jp/horai/leiden.htm