Blog do Monge
28.02.10
Marlene

Marlene está inconsciente no hospital.

Será que está mesmo inconsciente?

A sua aparência era de muita paz e tranqüilidade no ouvir sereno da recitação do Juseige que fizemos ao seu lado. E conversamos.  Achei que ela estava mais bonita do que nosso último encontro, há exatamente um mês.  E a sua tranqüilidade também contrastava com o sofrimento das outras pessoas na UTI.

Ela tinha mais de setenta anos e vivia sozinha.   O filho na França, um irmão na Alemanha, outro no Rio Grande do Sul.  Há vários anos freqüentava o Templo, onde, na gestão passada, foi uma diretora muito dedicada e responsável.  Juntamente comigo, fez a versão belíssima do Juseige para o português, a partir do inglês.  Ao ouvir essa versão no leito, quieta, ela parecia mais contente.

A sua vida não foi fácil.  Chegou jovem ao Rio de Janeiro, inexperiente na vida agitada de uma grande cidade e longe da família, teve um filho.  Resolve emigrar para os Estados Unidos  com seu único instrumento de trabalho, o conhecimento da língua inglesa, acompanhada somente do filho ainda criança. Lá, permanece por muitos anos, trabalhando como secretária, insatisfeita com o trabalho, mas feliz por poder garantir a boa educação do filho. 

Consegue a aposentadoria americana básica e retorna ao Brasil. O filho, já adulto, permanece em São Paulo e ela vem para Brasília, tomar conta do apartamento do irmão diplomata que fica ao lado de um templo budista.

Talvez tenha visitado o templo por curiosidade ou atraída pelas batidas do sino.  E fica.  Sente a iluminação do Buda para continuar dando sentido à sua vida, absorve os ensinamentos do Darma que explicam as causas e condições do sofrimento humano e quer fazer parte da Sanga, a comunidade de iguais reunidos em torno do Buda para a prática do Darma.      

Passa a assistir regularmente as sessões de meditação cantada e contemplativa, recitar o nembutsu e a participar ativamente dos grupos de estudos.  Aceita ser membro da diretoria do Templo para ajudar na sua manutenção e expansão.  

Via-se que foi um período feliz da sua vida.  Poucos amigos, mas vivia bem, viajava às vezes com o filho que tinha namorada no exterior.  Não deixava de ter suas preocupações, com o próprio filho e consigo própria vivendo sozinha, embora a Ana, a fiel governanta, sempre agisse como um anjo de guarda.  Mas o budismo lhe renova a energia: resolve enfrentar um vestibular para diplomar-se, finalmente, como tradutora juramentada. 

Estuda seriamente e é aprovada.

Na mesma semana, somos informados da sua hospitalização.

Marlene vai renascer na Terra Pura do Buda para dar continuidade à sua vida, agora em perfeita Paz e plena Bem Aventurança.  Ela tem consciência disso, daí a sua expressão serena, tranqüila e bonita.

( Leiam a tradução  e ouçam o audio do Juseige.)

fotografia : Emptiness - Zorg Sabato



 
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