
Marlene

Marlene está inconsciente no hospital.
Será que está mesmo inconsciente?
A sua aparência era de muita paz e tranqüilidade no ouvir sereno da recitação do Juseige que fizemos ao seu lado. E conversamos. Achei que ela estava mais bonita do que nosso último encontro, há exatamente um mês. E a sua tranqüilidade também contrastava com o sofrimento das outras pessoas na UTI.
Ela tinha mais de setenta anos e vivia sozinha. O filho na França, um irmão na Alemanha, outro no Rio Grande do Sul. Há vários anos freqüentava o Templo, onde, na gestão passada, foi uma diretora muito dedicada e responsável. Juntamente comigo, fez a versão belíssima do Juseige para o português, a partir do inglês. Ao ouvir essa versão no leito, quieta, ela parecia mais contente.
A sua vida não foi fácil. Chegou jovem ao Rio de Janeiro, inexperiente na vida agitada de uma grande cidade e longe da família, teve um filho. Resolve emigrar para os Estados Unidos com seu único instrumento de trabalho, o conhecimento da língua inglesa, acompanhada somente do filho ainda criança. Lá, permanece por muitos anos, trabalhando como secretária, insatisfeita com o trabalho, mas feliz por poder garantir a boa educação do filho.
Consegue a aposentadoria americana básica e retorna ao Brasil. O filho, já adulto, permanece em São Paulo e ela vem para Brasília, tomar conta do apartamento do irmão diplomata que fica ao lado de um templo budista.
Talvez tenha visitado o templo por curiosidade ou atraída pelas batidas do sino. E fica. Sente a iluminação do Buda para continuar dando sentido à sua vida, absorve os ensinamentos do Darma que explicam as causas e condições do sofrimento humano e quer fazer parte da Sanga, a comunidade de iguais reunidos em torno do Buda para a prática do Darma.
Passa a assistir regularmente as sessões de meditação cantada e contemplativa, recitar o nembutsu e a participar ativamente dos grupos de estudos. Aceita ser membro da diretoria do Templo para ajudar na sua manutenção e expansão.
Via-se que foi um período feliz da sua vida. Poucos amigos, mas vivia bem, viajava às vezes com o filho que tinha namorada no exterior. Não deixava de ter suas preocupações, com o próprio filho e consigo própria vivendo sozinha, embora a Ana, a fiel governanta, sempre agisse como um anjo de guarda. Mas o budismo lhe renova a energia: resolve enfrentar um vestibular para diplomar-se, finalmente, como tradutora juramentada.
Estuda seriamente e é aprovada.
Na mesma semana, somos informados da sua hospitalização.
Marlene vai renascer na Terra Pura do Buda para dar continuidade à sua vida, agora em perfeita Paz e plena Bem Aventurança. Ela tem consciência disso, daí a sua expressão serena, tranqüila e bonita.
( Leiam a tradução e ouçam o audio do Juseige.)
fotografia : Emptiness - Zorg Sabato






























