
Arigatô de novo

Arigatô de novo pelas manifestações e esclarecimentos. Já tinha lido a interpretação de que a palavra japonesa seria uma corruptela de obrigado, por influencia do São Francisco Xavier que visitara o Japão na época do senhor feudal Oda Nobunaga, no século XVI. é difícil sustentar essa tese pela origem budista comprovada de arigatô.
Para ilustrar a compreensão budista e cultural da palavra, vamos voltar ao século XX para poder contar uma história real. Eu devia ter sete ou oito anos, e me lembro que era perseguido por alguns meninos na rua. Eles me jogavam pedras, gritavam e xingavam: “Japonês, arigatô, nê! Japonês, garantido, nê”. Não entendia nada e corria assustado.
Eram anos de pós-Segunda Grande Guerra Mundial. O Japão, que fazia parte do Eixo juntamente com a Alemanha e Itália, foi um país perdedor e o Brasil estava do lado dos vencedores, EUA, Inglaterra, França, Rússia, etc. E os imigrantes alemães, italianos e japoneses que pouco tinham a ver com essa história e estavam trabalhando honestamente integrados ao mundo social e econômico brasileiro, recebiam alguma forma de discriminação.
Os imigrantes japoneses iam direto para as colônias de café, mas cumprido o contrato faziam tudo para chegar às cidades a fim de educar os filhos, ganhando a vida no pequeno comércio ou prestação de serviços como quitandeiro, dono de armazém, tintureiro, carpinteiro, etc. Sem falar bem o português para se comunicar, tinham que assegurar a qualidade do serviço ou produto e difundir cordialidade.
“Será que esse ovo está fresco?” “Garantido, nê. Arigatô”. “Posso ter essa roupa lavada e passada até sábado?” “Garantido, nê. Arigatô”.
Os termos “garantido, nê” e “arigatô”, passaram a apelidar os japoneses que assim foram construindo sua credibilidade profissional e harmonização social. Assim, não deixa de ser fortuita maldade comum em crianças maltratar um japonesinho que fugia assustado sem entender porque duas palavras de tão nobre significado eram usadas para xingação.
Ele estava longe de saber que “garantido nê” significa a indubitável crença budista de que, no ciclo da vida e morte, pode-se sair da margem de cá – samsara – para atingir a outra margem de lá – nirvana. é a convicção de que, no fluxo da vida, o sofrimento do esforço e o balizamento do caminho correto nos direcionam no sentido da verdadeira felicidade. é a postura para cultivar no aqui e agora as condições para a plena realização das causas benéficas intrínsecas.
Aquele japonesinho hoje sabe que é difícil nascer, especialmente na forma humana. Milhões de células se perdem para viabilizar você, só você. Agradeçamos a isso.
Sabe também que na vida temos milhões de encontros, desde o nascimento até agora, reais ou virtuais e por todos os lugares – na rua, na escola, no cinema, num estádio de futebol, no site – mas o encontro precioso com você – sim, você mesmo que está lendo esse post - foi uma única possibilidade. Agradeçamos a isso.
Existem milhões de explicações sobre a vida. Muitas teorias e doutrinas, impressões e idéias pessoais que vêm e vão a qualquer momento da vida, no cotidiano. Encontrar-se com a Luz do Buda pelo nembutsu é uma oportunidade rara. Agradeçamos a isso.
Não há porque se queixar da vida, tão difícil de ser, estar, encontrar. Agradeçamos a isso. ARIGATô – NAMO AMIDA BUTSU.
(Ilustração: O peixe dourado, Paul Klee)






























