
GÔSHÔKI HÔONKO

Este ano, deixei de participar em São Paulo do importante cerimonial de GOSHôKI HôONKO, em memória do Shinran Shonin, fundador do Shin Budismo da Terra Pura, que faleceu em 16 de janeiro de 1263. A ausência do evento que freqüento desde 1995, bem como a interrupção temporária na nossa comunicação pelo blog, se devem indiretamente a razões relacionadas à suspeita de câncer que devo continuar investigando, mas sobre isso falarei numa próxima oportunidade.
Na cerimônia que fizemos no Templo de Brasília, tivemos a oportunidade de falar um pouco sobre um dos mais importantes e inovadores pensadores religiosos na história do Japão, mas muito pouco conhecido no ocidente. Segundo o grande intelectual do budismo japonês, considerado o introdutor do Zen Budismo no Ocidente, Daisetsu Suzuki “os japoneses não ofereceram muitas idéias originais para o pensamento e cultura globais, mas em Shinran Shonin encontramos a principal contribuição que os japoneses puderam dar ao mundo e a todas as outras escolas budistas”.
Aos nove anos ele é ordenado monge, sobe o sagrado Monte Hiei e torna-se interno do mosteiro tradicional da Escola Tendai, onde permanece por 20 anos, dedicado a profundos estudos e a rigorosas práticas de ascese budista. Entretanto, aos vinte e nove anos – a mesma idade com que Sidarta deixou o palácio imperial paterno – ele vai ao encontro do Honen Shonin que pregava a recitação do Nembutsu - Namo Amida Butsu - como o único caminho para retornar ao principio igualitário de libertação do sofrimento transmitido por Buda Sakyamuni, contrariando o tradicionalismo elitista do budismo vigente.
Em 1207, Honen e seus discípulos são proscritos do budismo, perseguidos pelas forças tradicionais que mobilizaram o poder político imperial. Shinran tinha trinta e cinco anos, a mesma idade do despertar do Buda Sakyamuni. Embora a anistia tenha chegado alguns anos depois, ele se intitula “nem monge, nem leigo – hisoku, hizoku” e continua a pregação do budismo do Nembutsu entre o pessoal pobre e inculto ao nordeste, bem longe da Kyoto metropolitana. Constitui família, enfrentando a hipocrisia religiosa e começa a escrever a sua obra prima Kyogyoshinsho para consolidar e transmitir os ensinamentos do seu dileto mestre Honen como de outros eminentes pensadores do Budismo Mahayana como Nagarjuna, Vasubandu, T’an Luan, Tao Ch’o, Shan Tao e Genku. Na atualização desses conceitos, certamente o contato direto com a dura realidade experimentada junto a pescadores, agricultores e aldeões serviu de linha mestra.
Só retorna a Kyoto aos sessenta e três anos, após 25 anos de exílio. Nunca foi abade de templo nenhum, mas continua em intensa atividade missionária para difundir o budismo amidista do Nembutsu, especialmente na composição de hinos - wasan – de fácil compreensão e memorização popular.
Com Shinran Shonin, conceitos revolucionários transformaram o clima de desespero da época tumultuada de transição política e social em esperança do porvir ou devir. Que Buda Amida nos acolhe incondicional e igualmente na Sua Terra Pura da Paz e Bem Aventurança, como somos e onde estamos, mesmo não podendo extinguir as paixões cármicas do desejo, ódio ou ignorância, imanentes à própria natureza humana. Que não se viva esta vida mundana na interminável angustia do sofrimento pois ela é para ser vivida intensa e plenamente graças ao Buda que nos ilumina com a Luz Incessante da Compaixão e Sabedoria. é o Buda que confia em nós, na nossa natureza búdica, ainda que nada confiemos a ele.
é preciso entender hoje o significado dessa confiança verdadeira, que se expressa na nossa atenção plena no Buda (pensamento no Buda Amida) e na nossa voz (recitação do nome do nome do Buda Amida). Por isso, Shinran dizia que o pensamento e a voz são uma coisa só. Quando recitamos o nome do Buda Amida, ele aparece na nossa mente; quando o Buda Amida aparece na nossa mente, recitamos o Nome (NamoAmidaButsu ou Namandabu).
No Templo de Brasília, revitalizamos o pensamento de Shinran Shonin na conjugação do pensamento (visualização de Amida) e voz (recitação da Namandabu). Humildemente e com agradecimento, nos sentimos próximos ao pensamento não-discriminatório e abrangente de Shinran, que incluía todos os seres sem distinções. Reverenciamos o mestre a cada dia assim como reverenciamos a todos os seguidores do Nembutsu em todas as épocas.
Acho que isso vale muito para os dias de hoje, neste mundo que parece fragmentado, híbrido e desestruturado, para não dizer dissoluto e castrador. Nembutsu é a invocação da vida em toda sua vitalidade virtual e múltipla e na sua potencialidade infinita e universal.
Por que não!






























