Blog do Monge
30.12.09
A sublime passagem do ano com 108 badaladas

No Templo de Brasília está o maior sino budista (bonshô) do Brasil, medindo dois metros de altura e um metro de diâmetro.  Todo dia é batido dez vezes pelo monge ou assistente, às 7h da manhã e 6h da tarde, como se cada vibração fosse a Luz do Buda a estender-se pelo universo na forma de energia sonora.  é muito bonito e já se tornou tradição na cidade, além de ser estimado pelos vizinhos que aproveitam as batidas para regular suas atividades cotidianas.   Tradicionalmente, essa era a função dos sinos como marcadores do tempo, avisando os aldeões dos horários para acordar, ir ao trabalho, comer, recolher-se.

No dia 31 de dezembro, todo ano, o Templo Budista de Brasília reúne os budistas, simpatizantes e seus familiares para a Cerimônia da Passagem do Ano, às 23h, para vibrar o sino grande com 108 badaladas, cada um com uma batida.  O convite é aberto e o evento é muito concorrido, com a presença bem vinda de pessoas de boa vontade e de bem que querem aproveitar a oportunidade generosa.

Não é só para lembrarmos da impermanência do nosso tempo, a passagem de um ano para outro.  O número 108 está ligado com a boa sorte na numerologia, nas antigas religiões arianas e dos sumérios.  Em várias escolas budistas, orações, mantras e prostrações são repetidas 108 vezes para acumular méritos na expulsão do mal, adquirir benefícios espirituais, paz e bem aventurança.  Até se fala em 108 pessoas iluminadas – budas – que estão anonimamente entre nós para libertar a humanidade do sofrimento.

Aprendemos no budismo que os desejos são a causa do sofrimento.  No Shin Budismo da Terra Pura, a Cerimônia da Batida do Sino ( Joya no Kane) é especial, pois simboliza que podemos manter os 108 desejos e, mesmo assim, alcançar a felicidade verdadeira, iluminado pela Luz do Buda Amida.

Aceita-se o desejo como inerente à nossa condição, advindo da forma física, social e temporal da natureza humana.  Temos contato com a vida por meio dos nossos 6 órgãos dos sentidos: visão, audição, paladar, olfato, tato e pensamento.  Cada um desses órgãos nos traz sensações de agrado, desagrado ou indiferença.  Por exemplo, a mesma pintura ou música pode ser agradável para uns, desagradável para outros, indiferente para terceiros.  6 x 3= 18.  Cada uma dessas sensações provoca 2 desejos: apego ou aversão.  18 x 2= 36.  Esses 36 desejos são multiplicados por 3 porque não se referem apenas ao presente, mas também ao passado e ao futuro.  Posso estar apegado a algo que ainda nem aconteceu, bem como continuar avesso a coisas que já passaram.  Eis que chegamos, no mínimo, a 108 desejos que pautam a nossa vida, causando sofrimento.

Alguns – como Buda Sakyamuni – alcançaram o nirvana, livrando-se de todos os desejos que compõem o forte ego.  Talvez ao nosso lado esteja, sem saber, uma das 108 pessoas iluminadas para orientar-nos no caminho da paz e felicidade duradouras.  Quem sabe?

O Shin Budismo da Terra Pura nos dá uma indicação mais segura.  Mesmo que não consigamos abandonar os nossos desejos, a recitação do Nome do Amida – Nembutsu – que expressa a aceitação do Voto de Confiança do Buda em nós – shinjin ou Mente Confiante – nos conduz imediatamente ao encontro com o darma supremo.  Sentimos, instantaneamente, o abraço generoso do Buda Amida que nos acolhe na Sua Luz, incondicionalmente, como somos e onde estamos.

Essa Luz – Outro Poder ou Tariki – não é para ficarmos esperando a boa sorte desejada, reforçando os desejos egoístas que estão na raiz do próprio sofrimento.  é para nos esclarecer como somos e onde estamos no caminho da compaixão e sabedoria, a verdadeira felicidade. Cada batida no sino é uma Luz.

Venha sentir essa emoção.



 
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