
Natal, fim de ano, aqui e agora
Feliz Natal e Próspero Ano Novo.
O fim do ano se aproxima. Mas, no instante seguinte, começa o novo ano. Sem morte não há nascimento. A morte é tão importante como o nascimento. A vida continua por ciclos e ciclos de nascimentos e mortes.
O que importa é o que estamos fazendo aqui e agora. Onde estamos aqui e agora. O que pensamos aqui e agora. Como somos aqui e agora.
Neste final de ano, podemos estar aqui e agora no shopping, fazendo compras para o Natal para entes muito queridos ou nem tanto. Pensando no pernil ou no peru que vamos degustar com a família, no vinho a ser bebido ou na roupa a usar. Estar de viagem marcada ou já viajando para praia, campo, metrópoles, lugares estimados ou desconhecidos. Estar no happy-hour com amigos, fazer brindes, saudar e se despedir do ano que se vai. Tudo isso é prazeroso, às vezes mais às vezes menos e mesmo os que neste ano estão distantes dessa euforia, já fizeram parte dela. Contudo, a alegria deste “aqui e agora” é relativa e pode ser passageira se for pautada por vontades, ressentimentos e ilusões que causam sofrimento.
O “aqui e agora” de que fala o budismo é bem expresso por uma palavra japonesa - “itigô/itiê” – que significa considerar cada instante da sua vida como o último momento a ser aproveitado no encontro equânime de compaixão e sabedoria com o próximo ou com a natureza, o único tempo que termina e recomeça ao mesmo tempo. Quando se pediu ao Bashô no leito de morte o último haikai de despedida, ele disse que todos seus poemas eram de despedida. Os grandes cultores do chadô servem chá ao próximo como se fosse o derradeiro serviço. Num escrito recente, Thich Nhat Hanh lembra o personagem Meursault do “O Estrangeiro” de Albert Camus que, encarcerado à espera da rápida execução, por três dias à espera da morte, consegue viver pela primeira vez a plenitude da vida de cada instante, apenas fitando o céu azul da minúscula janela da sua cela, libertando-se do desejo, do ódio e da ignorância.
Tudo bem, não estamos numa cela com os dias contados, nem somos tão concentrados cultores de cerimônias de chá ou poetas sensíveis observadores da natureza. Vivemos dispersos e confusos no caos dessa vida mundana atribulada, especialmente de fim de ano.
Entretanto, são os problemas cotidianos ou inesperados, pequenos ou grandes, que servem para despertar a nossa consciência de melhor aproveitar verdadeiramente o aqui e agora. Como disse o grande monge cingalês Budagossa, “o sofrimento existe, não o sofredor”. A meditação budista e a recitação do Nembutsu de aceitação e agradecimento da Luz Imensurável, Ilimitada, Sem Obstáculos, Incomparável, Majestosamente Flamejante, Incessante, Inconcebível, Inefável, Pura, de Alegria, Compaixão e Sabedoria, que nos abriga e abraça incondicionalmente como somos e onde estamos e jamais nos abandona, fazem do viver a verdadeira alegria.
Morrer a fim de renascer também é uma alegria. Recomeçar é maravilhoso e estamos recomeçando constantemente.
Feliz Natal e Próspero Ano Novo para todos. Por que não?






























