
Norio, o companheiro que se foi

Monge Norio Haritani morreu.
Na sexta-feira, dia 11 de dezembro, às sete horas da manhã, ele dirigiu-se à Casa do Grande Sino do Templo, deu a primeira badalada e deitou-se embaixo do sino para ser recebido pelo Buda Amida na sua Terra Pura.
Apanhou muito na vida. Literalmente. Chegou ao Brasil há quarenta anos em busca de novos horizontes, sozinho, deixando seus pais e irmãos no Japão. Após alguns anos trabalhando na plantação de uvas e nos cafezais do oeste do Paraná, estabeleceu-se na cidade de Londrina para difundir o karatê que cultivara na sua terra natal. Ainda uma arte exótica, deu a própria cara para apanhar, enfrentando valentões que vinham desafiá-lo. Firmou o conceito da sua academia e formou centenas de praticantes. Casou-se com uma brasileira nissei e teve dois filhos. Obteve o titulo universitário de professor de educação física.
Famoso pela sua arte, estimado por seus alunos, admirado pelos concidadãos, um dia decide visitar o Japão com a esposa e experimentar a vida de dekassegui como trabalhador temporário recrutado pela economia japonesa em expansão. Nesse intervalo, a sua esposa, que voltara antes ao Brasil, falece e ele não chega a tempo.
Decide tornar-se monge budista. Continua trabalhando de dia e se matricula no curso oficial de formação de monges para estudar de noite e fazer as lições de madrugada. Mais dois anos para retornar ao horizonte brasileiro.
Como monge responsável do Templo o convido para vir à Brasília, aceito após relutância inicial, pois queria fixar-se em Londrina. Aqui passa a coordenar as aulas de artes marciais e a exercer efetivamente a função de monge-assistente, com muita humildade e dedicação. Durante quase cinco anos, esteve em todos os ofícios e fez questão de bater o Grande Sino, tanto de manhã como de tarde, sem nenhuma falta ou atraso. Criou um método próprio para difundir os ensinamentos budistas em português com uma linguagem simples e o uso de desenhos ilustrativos em que era muito habilidoso. Dirigiu sessões de meditação cantada. Deu aulas de língua e caligrafia japonesas.
Sofreu com o preconceito institucional da organização religiosa e a incompreensão dos filhos, embora em Brasília formasse novos admiradores.
O seu cotidiano expressava a aceitação plena da Luz que nos abraça como somos e onde estamos, incondicionalmente. Era a representação mais que eloqüente de uma criança que todos nós somos, na sua teimosia e ternura, na sua fragilidade e inteireza, na sua sociabilidade e solidão, na sua alegria e tristeza, mas sempre abrigada na Compaixão e Sabedoria do Buda. A sua prática diária confirmava, a todo instante, a certeza e a confiança na Terra Pura.
Tinha problemas crônicos de saúde, apesar dos cuidados carinhosos de alunos dedicados e das pessoas mais próximas. No ano passado recebe o titulo de cidadão honorário de Londrina. Em julho deste ano, recebe diretamente das mãos do bispo a confirmação oficial da condição de monge. Nunca o vi tão alegre.
Hoje me dou conta que, desde então, passou a se despedir desta vida mundana. As suas falas se tornaram mais diretas e convictas de agradecimento à vida e ao Buda. A mim, pessoalmente, deixou sugestões preciosas e precisas em como dar continuidade ao processo de ECô, difusão dos méritos do Buda no Brasil.
No último dia da sua vida entre nós, caminhou sozinho até a Casa do Sino e deu uma badalada para ir descansar na Terra Pura de morte natural. Tinha sessenta e três anos. Faltaram mais nove badaladas para completar a série que deixou para nós.
Na homenagem que aqui prestamos, a nave do Templo ficou lotada, desde os alunos de artes marciais e de cultura japonesa, jovens em geral que o adoravam e os japoneses pioneiros e fundadores do templo, o pessoal do coral que sabia que ele gostava de cantar e os adeptos da meditação budista, até vizinhos e antigos discípulos de Londrina. Muitos depoimentos emocionantes de contatos pessoais de bondade amorosa e inteligência espiritual. Foi uma demonstração viva de que ele foi o grande elo de interação budista entre esses vários grupos.
Em Londrina, para onde acompanhamos o corpo para ser sepultado ao lado da mulher amada, a mesma coisa aconteceu no salão principal da academia que ele fundou e mais tarde no templo budista, inclusive com a presença de autoridades. O mais importante foi a reconciliação plena que teve com o filho, presente desde o primeiro momento.
Perco mais um companheiro valioso de vida. Mas a sua prova em pessoa de Mente Confiante do Buda Amida – shinjin – ficará para sempre.
Prestaremos a homenagem póstuma de sétimo dia, no dia 20 de dezembro, domingo, às 9 horas, no Templo.






























