Blog do Monge
07.12.09
Será Buda Sakyamuni cartesiano?

No último post, falamos das primeiras palavras do Buda Sakyamuni - As Quatro Nobres Verdades - e mencionamos  jiriki e Tariki  que expressam a visão prática, compassiva e sábia do Shin Budismo da Terra Pura, especialmente no que se refere ao Caminho óctuplo, a Quarta Nobre Verdade.    

O cruzamento do jiriki (Próprio Poder) e Tariki (Outro Poder) para a vida plena de compaixão e sabedoria não foi uma invenção do Shinran Shonin.   Ele encontrou em Honen, seu dileto mestre, como buscou em outros sábios como Nagarjuna (sec. II d.C.), Vasubandhu (sec. IV d.C.), T’an-luan (476-542 d.C.), Tao-ch’o (562-645 d.C.), Shan-tao (613-681 d.C.) e Genshin (942-1017 d.C.) a base doutrinária e inspiração para interpretar as últimas palavras do Buda Sakyamuni.  

Essas palavras parecem antagônicas.  A primeira frase diz: “ Faça de você mesmo uma luz; confie em si próprio; não dependa de mais ninguém”.  E a segunda: “Faça de meus ensinamentos a sua luz; confie neles; não dependa de outros ensinamentos”.  Atentemos, pois não há antagonismo, mas conjugação.

Se assim não fosse, a primeira frase inspiraria uma postura fortemente individualista, de auto-suficiência e arrogância,  e a segunda denotaria forte sectarismo doutrinário de presunção e soberba do budismo.

Podemos usar uma imagem conhecida da nossa lógica ocidental, que é a representação do plano cartesiano.  A primeira frase é como se fosse o eixo das ordenadas. Indica que, ao sermos escolhidos para viver a experiência desta vida, nos é dado assumir a responsabilidade para encará-la como ela é - dukkha, samudaya, nirodha e magga – transcendendo nossa vontade ou desejo.  Entretanto, para tomar as rédeas da nossa vida precisamos de um sentido, um direcionamento que é dado pelo eixo das abscissas, que apresenta os princípios que conformam o universo como impermanência, interdependência e insubstancialidade.  O primeiro eixo pode ser chamado de ego e o segundo de darma. 

é claro que não podemos nos situar na vida para prosseguir no caminho da compaixão e sabedoria só assentados no eixo do ego.  Mas não podemos prosseguir no eixo do darma sem passar pela experiência do ego.

Assim, necessitamos de algo mais para nos situar na vida.  Esse “algo” é imprescindível, porque a vida humana não é redutível ao plano cartesiano de apenas duas dimensões, sim ou não, bem ou mal, eu ou o outro, sujeito ou objeto.  

Não deixem de ver e refletir sobre a apresentação As últimas palavras do Buda

 
Nome:

E-mail: (Apenas o Monge visualizará)