Varrendo por uma Terra Pura

postado por Santhiago Cavalcanti / 01 comentários

A amiga do Zen Budismo, Rachel Kyo Hô, está no Japão, fazendo treinamento num monastério. Ela ainda não é monja e está feliz da vida. Recentemente escreveu no Facebook sobre a importância da vassoura apelidada de Preciosa e disse “ Já chorei com a Preciosa, já sorri com a Preciosa, já dancei com a Preciosa, já sentei com a Preciosa”. Muitos de vocês já esboçam um sorriso, afinal vassouras e mulheres combinam, mas a limpeza no Budismo desconhece gênero, classe social e outras discriminações. Então você pergunta com curiosidade: por que essa moça de classe média, que deve ter estudado tanto sobre Budismo, acabou por conhecer a felicidade com uma…vassoura?

Na cultura japonesa, a limpeza é considerada não só um trabalho braçal ou inferior. Ao contrário, nas escolas, as crianças aprendem a limpar e servir antes do ensino formal. Fazem faxina, servem as refeições, lavam os pratos, aprendendo desde cedo a colaborar, trabalhar juntos, ajudar, experimentando numa escala microscópica, tudo aquilo que mais tarde será vivenciado numa escala maior, no cotidiano do trabalho, da família, dos estudos, da política e da economia. Aprendem sobretudo o valor dos relacionamentos, porque limpeza é trabalho de comunidade. Aquela frase simples que ouvimos principalmente de nossos avós “a escola é a vida” é aprendida pelas crianças japonesas desde cedo.

No fim do ano, o grande ritual japonês de limpeza é chamado de O-souji. O é um honorífico, uma deferência a alguém muito especial. Então, muito prazer, “senhor ou senhora limpeza!”. Sou significa varrer e ji, remover, mas na linguagem budista, souji significa “varrer os obstáculos”. Portanto, souji não é atividade mecânica qualquer, é olhar para si e olhar para o seu redor, é um instante de felicidade no cotidiano, em que conseguimos perceber a pureza em meio à sujeira. Souji é um instante de sabedoria.

O Buda Shakyamuni fala de um discípulo, Cudapanthaka, que era muito limitado e recebeu uma instrução especial para se dedicar por toda a vida à limpeza. Assim ele chegou à sabedoria perfeita, que chamamos de iluminação, mas isso não quer dizer que só as pessoas inferiores se dedicam à limpeza. No Japão, grandes mestres da Cerimônia do Chá iniciam os trabalhos pela limpeza e no nosso Templo da Terra Pura, você pode sempre ver o experiente Sensei Nargel, professor de Karatê no Templo, de forma solitária, passando o rodo no tatame, quando ninguém está vendo. Por que eles ainda fazem isso, quando poderiam contar com a ajuda ansiosa dos discípulos?

Muitas pessoas de boa formação intelectual chegam ao Templo e perguntam: “O que posso ler sobre budismo?”. A minha vontade sempre é lhes dar uma preciosa vassoura. Por que isso? No Budismo dizemos que a sabedoria não vem só da apreensão intelectual da vida. É preciso que o ensinamento se manifeste na vida. Se você apenas lê, vai alcançar um entendimento superficial, de ordem meramente intelectual. Por isso, os rituais são tão importantes: oferecemos incenso e flores, fazemos reverências, meditamos e recitamos, fazemos limpeza. Sim, a limpeza é um ritual! E o que caracteriza esses preciosos rituais é que eles são acessíveis a todos. É por isso que, ao final do ano, não só a comunidade budista como a vizinhança e toda Brasília vêm ao Templo para se encontrar com o aprendizado da limpeza. Intelectuais, donas de casa, funcionários do Templo, voluntários da quermesse, entre outros, encontram-se com os budistas para aprender na “escola do Templo” o que é a vida.

Exercitamos diariamente a utopia de uma sangha Terra Pura em Brasília, mexendo a vassoura para purificar a sujeira do templo, do país, de todo o planeta. Não estranhe se você ouvir alguém alegremente empunhando uma vassoura e recitando o Namandabu. É alguém que está naturalmente na presença do Buda Amida e de todos os Budas, sentindo-se inteiro e pleno junto com todos os seres.

É isso aí, Rachel-san. Namandabu!

Texto por Monja Cris E-gen.