Questionando O Modo de Vida

postado por Santhiago Cavalcanti / no comentários

Sofremos, hoje.
Quando Sidarta Gautama vivia há 2.500 anos, não haviam inventado os equipamentos para o ser humano ampliar a sua capacidade sensorial como telescópios e microscópios e nem se falava na teoria do Big Bang. Não existiam meios de comunicação instantânea à distância e a sociedade estava estruturada em castas irremovíveis como se fossem fixas pelo destino.
Mas a humanidade já sofria.
Sidarta se torna Buda Shakyamuni quando se dá conta de que o sofrimento é sinal de vida. Se não estivéssemos vivos, não estaríamos sofrendo e a vida é a mudança, é a evolução, é a impermanência de tudo, de todos os seres e de todos os fenômenos. O sofrimento também é impermanente. Podemos dele nos livrar se entendermos o nosso eu como Não-Eu, ou seja, que somos interdependentes socialmente e compostos celulares-energéticos pessoalmente.
Como podemos ter então a noção de felicidade?
No próprio cotidiano da vida: visão do mundo, pensamento sobre a vida, atividade que desenvolve, comunicação com os outros, sua própria atenção, concentração, esforço e modo de vida.
Assim, não adianta questionar sobre a vida e o sofrimento, pois são sinônimos equivalentes. Pode-se questionar o nosso modo de vida, mas isso também é difícil o que nos leva a questionar o modo de vida dos outros.
Com o avanço da ciência e tecnologia, especialmente dos meios de comunicação, temos acesso às informações dispersas de forma instantânea. As castas não são fixas, a democracia é o regime vigente e as disputas de poder político ficam escancaradas. O mercado parece disponível para todos desde que tenham poder aquisitivo. O dinheiro passa a ser o bem mais valioso.
Criticamos e nos decepcionamos com os outros quando os descobrimos como não portadores das virtudes da sinceridade, honestidade e integridade, mas também ficamos constrangidos com vergonha e até nos sentindo culpados porque essas qualidades não estão presentes o tempo todo em si próprio.
Daí a dificuldade da autocrítica, observar com sinceridade, honestidade e integridade o próprio comportamento.
Proponho então questionar o modo de vida dos nossos filhos e dos nossos netos.
Não questionar para cobrar-lhes, até porque você pode ainda não os ter, mas meditando com atenção, concentração e esforço.
Devemos amá-los, mas com a consciência de que eles são o resultado do nosso modo de vida, são decorrência do nosso comportamento até então.
Isto, mas para ficar constrangido, com vergonha ou culpado?
Buda revolucionou a cultura do destino pré-determinado que sustentava as castas por séculos e séculos com o despertar da consciência de que carma é ação, tanto para dentro como para fora.
Para dentro, entender as razões do próprio comportamento para poder mudá-lo. Para fora, atuando sobre as condições sociais, ambientais e políticas que nos afastam da solidariedade, do amor e da criação coletiva.
Podemos sofrer menos. Nossos filhos e netos merecem sofrer menos.
Sejamos felizes. Isso é possível.
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