Vida não termina com morte

postado por Santhiago Cavalcanti / no comentários

Texto do Monge Sato publicado em sua página no facebook — http://facebook.com/satomonge

Podemos viver reclamando da vida, mas todos têm medo da morte, mesmo por curiosidade.

Também é inegável que guardamos lembrança de alguém que morreu, próximo ou distante.

Eu me lembro do meu único irmão que era 5 anos mais novo e faleceu aos 30 anos, meus dois filhos que morreram antes dos 8 anos, meus pais com quem vivi mais de 50 anos, meus primos com quem passei a adolescência, meus tios que viviam em mundo diferente do meu e com quem aprendi muito, minha ex-mulher que conviveu comigo 40 anos passando pelas mesmas fases de vida familiar-profissional e sócio-política, meus amigos valiosos e memoráveis em várias etapas diferentes da minha vida.

Em situações especiais de vida, olhando-nos no espelho, viajando ou passando por locais em que estivemos juntos, pensamos neles compartilhando momentos de alegria e de tristeza, de sonhos e frustrações. Até de seres animais de estimação, nos lembramos.
Quando penso neles, em vez do medo da morte me surge a vontade de reencontrá-los. Onde eles estarão? Preciso morrer para vê-los e tocá-los como fazia quando vivos? Quando eu morrer, será que todos aqueles que gosto ou gostei em vida irão me visitar?

Me dou conta que a Vida não termina em Morte.

Hoje, na função de monge budista, tenho realizado enterros e ofícios fúnebres em situações diversas. Filhos que se despedem dos pais naturalmente mais velhos, seja em morte súbita ou após períodos de enfermidade. Pais que geralmente não esperam que os filhos morram antes, seja em acidente ou em doença. Os remanescentes reagem de várias formas, dependendo da própria personalidade, da situação objetiva e do tipo de convívio. Uns choram abertamente, outros choram ocultos, alguns encaram a situação nova com naturalidade ou ficam em estado de choque, nem conseguem chorar ou expressar os sentimentos.
As religiões fazem a religação com os mortos, mesmo para aqueles que não ligavam para Deus. Sabemos de casos em que cientistas e filósofos materialistas, se convertem a alguma religião na hora da morte. De pessoas que pareciam resolvidas emocionalmente, ficam muito atrapalhadas com a aproximação da morte por idade ou por doença. De mortes que trazem solidão e depressão, revolta e caos, resignação e apatia.

Pode ser outra coisa, mesmo para aqueles que acreditam em Deus no sentido monoteísta?

Posso falar do cristianismo que foi a minha formação religiosa em que há o conceito bipolar de julgamento das nossas ações em vida para ir ao inferno ou ao paraíso. Ora, as nossas ações nem sempre são de sabedoria e compaixão para merecer o paraíso, podemos estar praticando atos de ignorância e miserabilidade que nos conduzam ao inferno. Não teremos amigos só no paraíso ou só no inferno. E agora?
Existe o limbo, à espera do julgamento. Mas esta espera não seria o próprio inferno? Esta vida à espera da morte, não seria o próprio inferno?

No Budismo existe a Terra Pura após a morte que pode ser encontrada mesmo em vida, ser sentida, vista e tocada. Shin-Budismo é a concepção, o entendimento e a prática da Terra Pura pois a Vida não termina com a Morte.

É a interação da própria vontade de viver – jiriki (自力) – com a vontade de viver de todos – tariki (他力). Veremos como se dá isso.
( Ilustração: Mozneko )