Uma experiência singular do despertar

postado por Cris / 01 comentários

Faz muito tempo.  Era quando eu frequentava o mestrado de budismo na Universidade de Tóquio.

Tive dificuldades no início por não estar habituado a termos budistas.  Mas fui me entusiasmando cada vez mais com a metodologia da abordagem direta, objetiva, para observar a natureza humana, sem abstrações fictícias.  Lembro que perguntei ao professor: “Se a vacuidade no budismo não significa vazio, o que isso significa exatamente? Eu não entendo”.  Ficava até tarde bebendo e discutindo com colegas.

Neste dia, no longo caminho de volta para casa, continuei pensando sobre essas questões.  Pensar não é um ato à toa.  Exige concentração mental, atenção para organizar e analisar os dados, insistir na conclusão. Neste processo, sempre há dois lados, o objeto do raciocínio e, do lado de cá, o seu eu como o sujeito do pensar.  Assim quer-se chegar à Verdade- síntese.

Neste dia, estava pensando sobre um tema presente nos sutras do Budismo Primitivo: “Forma (色) é impermanente; portanto, tudo que tem forma está em transformação”.  Ou, “Impermanência é o próprio Sofrimento”.  Estava começando a entender que “neste mundo da forma, tudo é mutável mas nem sempre como queremos e, neste processo, surge a dor e a tristeza porque o meu desejo e aspiração podem ser destruídos”.  Portanto, impermanência é o próprio sofrimento e vice-versa.  Entretanto, não estava conseguindo entender porque “Sofrimento, portanto, eu não existo ()”

Chegando perto do templo, minha casa, vi muitas crianças brincando no recinto do templo que se transformara em um parque para a vizinhança.  Havia uma velha árvore de Fuji cujos galhos enormes descansavam em bancadas especiais de madeira.

A árvore subia verticalmente.  A criançada subia nas bancadas horizontais e balançavam os galhos, ininterruptamente, cada vez mais forte.  “Ah, ah, vai quebrar e machucar as crianças”, pensei num instante.  “Saiam daí, cuidado!”.  Mas antes de soltar o grito, o suporte principal se rompeu e toda bancada desmoronou.

Nada fiz perante as crianças que não estavam machucadas mas estavam quietas e cabisbaixas,  esperando a minha bronca merecida.  Mas nada fiz.

Naquele momento, surgiu a vontade instantânea da bronca.  Mas algo surgiu como o relâmpago que atravessa as trevas da minha mente que estava fixada, assistindo a cena da bancada que desmoronava. “Ah, isto é impermanência”. Instinto-ação, inspiração.

Nesta inspiração, tudo se despoja: o corpo, a mente, o ego, o passado, tudo.  A bancada-estante que desmorona se torna um montículo que se expande, envolvendo a mim e o meu arredor, unidade, tudo uma coisa só, sem discriminação e conflitos, tranquilo e vivificante, brilhante, pleno.  Com certeza, era o mundo que transcendia a minha mente discriminadora e estática.  Parece que, aqui-agora, tinha tomado plena consciência da dimensão real de mim mesmo absorvido no todo e no uno.

Sensação nunca experimentada, inefável, indizível em palavras.  Fiquei em pé, paralisado por algum tempo.  As crianças certamente estavam esperando mas não me ocorreu nenhuma vontade de repreendê-las.  Nem surgiu a vaidade da tolerância, da falsa amorosidade.  Talvez pudesse estar portando leve sorriso de alivio e tranquilidade.  Calado, caminhei e entrei em casa.  Só no dia seguinte, fiz as reparações necessárias, repondo os galhos da velha arvore nas bancadas.

Por que nada pude falar ou fazer na hora?  Talvez para a cena extraordinária que se desenhou na minha tela interior, não ser desmanchada com palavras, para se manter pura na memória.

A memória desta extraordinária experiência emocional durou alguns dias.  Quis registrá-la a fim de recordá-la.  Percebi como é difícil captar na sua integridade uma experiência vivida, guardar o real vivo e dinâmico na sua forma pura, descrevê-la fielmente.  Não consegui.

Nas minhas anotações da época restou uma única linha:

“Não há atalhos no Caminho. Na verdade, isso não existe em caminho nenhum. Tudo é Caminho”

Pena que tenhamos que retornar à vida normal, ordeira e ordinária, do dia-a-dia.  Mas podemos fazer com que ela seja menos discriminatória, menos discricionária e menos apegada, tomando consciência da sua prisão pelo ego e pelas circunstâncias.

Chikou Iwagami