Paciência-spider

postado por Cris / no comentários

Paciência é um preceito budista milenar que fez grandes conflitos e guerras se amainarem pela compaixão, a humanidade avançar pela senda da cooperação em vez da contínua conquista, a sabedoria prevalecendo sobre a selvageria instintiva. . Foi o Príncipe-Regente Shôtoku no Japão do século VI que incentivou a importação e a difusão do budismo já desenvolvido na China para buscar a unificação pacífica da “pequena” ilha que se perdia em batalhas sangrentas entre feudos regionais. O truculento reino mongol (Gengis Khan e seus descendentes, no século XIII) desistiu de dominar territorialmente e exterminar a cultura chinesa, admirados com o seu rico e profundo conteúdo budista. Há menos de cem anos, foi a ação do Gandhi na Índia, pautada pela energia e persistência da não-violência, que resgatou o imenso e múltiplo pais da degeneração do domínio estrangeiro.
Mas, o que estou falando é do “paciência spider”, o único jogo digital que sei mexer pela sua simplicidade e que está no meu notebook, nem sei por que. É a minha salvação: a ele recorro quando cai a internet e fico mergulhado na escuridão do abismo tecnológico; quando travado em algum texto que estou escrevendo e perco a esperança em traduzir o dialeto do Buda para a linguagem moderna ou perdido na indolência, cansado de tanta leitura “erudita” ou nem tanto. Nem a meditação me resgata.
Além disso, o paciência-spider me ensinou outras coisas. Para dar certo na vida, para fazer tocar a musiquinha do “você venceu” e o pipocar dos foguetes digitais na tela, só o exercício de atenção, concentração e esforço não basta! A aranha-spider tem oito patas: mais visão, mais pensamento, mais relacionamento, mais ação, melhoria do próprio modo de ser. Percebi que era o Caminho Óctuplo Budista!
E mesmo assim, tanta ignorância, como é possível a gente não perceber que há uma sequência natural, convencional ou natural de rei, rainha e valete e ordem numérica de 10 a As. Cartas viradas, esta ordem pode estar na frente do seu olho, a gente não enxergar e assim perder o jogo. Santa ignorância. Ainda bem que o jogo da vida continua, vira-vira da impermanência e do não-eu, a gente renasce a toda hora graças à Luz do Buda. O jogo da vida tem mais cartas que o paciência-spider que, aliás, nem sei quantas tem. Mesmo assim, por uma série de causas e condições – eu já testei isso – o jogo pode estar programado para se perder. E daí? NAMANDABU NAMANDABU NAMANDABU.
( imagem: Wijdenes—Appels” (Detail), © 2000 by Ellen Kooi. 151 x 88 cm, Edition 8. Torch Gallery, Amsterdam)