O problema da morte

postado por Cris / no comentários

( Takamaro Shikagaraki.  The buddhist world of awakening. Buddhist Study Center, 1983. Trad. Leandro Durazzo)

O simbolismo de “cruzar o oceano difícil de ser cruzado” possui uma questão crítica. Na “outra margem” desse oceano de vida existe a morte. A questão crítica posta pelo budismo Shin é a seguinte: em termos de sua própria morte, você já decidiu que direção está tomando?

A morte é o problema que ronda todos os seres viventes, por isso mortais. O “eu” que pensa sobre isso vai, um dia, cedo ou tarde – quando ou onde, não posso saber –, experimentar tal problema como uma clara consciência terminal. Apenas os humanos são conscientes de sua própria mortalidade. Somos provavelmente a única espécie que pode estar ciente de seus últimos momentos. Como o homem, ao longo do tempo, tem encarado a morte?

Primeiramente, há o enfoque sobre escapar da morte. No Japão, hospitais não possuem quartos com o número 4, porque o caractere para shi – 4 – tem a mesma pronúncia do caractere para “morte”. Na base da visão humana sobre a morte está sua aversão por relembrá-la, seu desejo de escapar dela. Ano passado, na Califórnia, li nos jornais a fala de uma mãe: “Não quero meu filho exposto à visão de um funeral, porque isso vai criar imagens sombrias em sua mente e ser psicologicamente danoso.”

Falando intuitivamente, minha primeira impressão é a de que ela, pessoalmente, está tentando fugir da morte. Muitas pessoas hoje olham para a morte como sendo uma intrusa na vida, intrusa de quem desejamos escapar. Essa é uma visão bastante rasa da vida. Manter as crianças afastadas de funerais vai realmente educá-las? Por que não ensinar a elas que um dia todos os seres morrem – inclusive seus próprios pais?

A palavra chinesa para “esquecer” é composta por dois caracteres, um significando “perder” e o outro, “coração e mente”. Hoje em dia, “esquecemos” da dimensão da morte. Com que frequência refletimos sobre a questão que ela nos coloca, de que não há qualquer garantia sobre um amanhã para nossos maridos, esposas, filhos, nós mesmos? Mantemos essa ideia afastada, perdendo uma questão sobre a qual precisamos, essencialmente, refletir profundamente. Esquecer, estar muito ocupado, são formas de escapar da reflexão sobre esse grande problema que é a morte – um problema que não podemos evitar, já que cada um de nós deve morrer sua própria morte.

Outra atitude é: “Se tenho que morrer de qualquer jeito, então vou deixar algum substituto, aqui nesta vida.” Por exemplo, mesmo que eu morra, meus textos, meus próprios filhos, netos ou o que quer que eu tenha criado, tudo isso cria uma ilusão de imortalidade a que eu posso me apegar. No Japão, um novo costume tem se tornado muito popular a esse respeito. A pessoa viva procura encontrar uma bela lápide para si própria, antes de morrer. Nos Estados Unidos, existem “pré-túmulos” que você pode escolher desde já. Sabendo que descansará eternamente sob algo de sua escolha, seu coração não fica um pouco mais aliviado? As pessoas dizem: “Agora que já completei minha casa, vou adiante e construirei meu próprio jazigo.” No Japão, até lojas de departamento vendem lápides! Isso realmente significa uma resolução para a própria morte? Myokonin Shomatsu respondeu, a um amigo que queria construir-lhe um belo túmulo: “Agradeço, mas não precisa. Não vou viver nele.”

Desde tempos antigos, outra forma de fuga da morte é a ideia de reencarnação. Esse escape diz que, já que renasceremos neste mundo outra vez, a morte não deve ser temida. Nas pirâmides do Egito há muitas múmias, uma preservação física que resultou da crença de que, na morte, a alma deixa o corpo, vagueia, mas precisa de um corpo para onde retornar. Essa é uma forma simples de encarar a reencarnação, um tipo de crença que persistiu fortemente no passado.

A quarta atitude com relação à morte é a da transmigração para outro tipo de mundo, outro tipo de vida, que sugere, novamente, que a morte não deve ser temida. No Oriente, essa ideia de transmigração é a que prevalece. A esperança é de que o homem possa renascer outra vez como um ser humano, mas talvez como um animal. No budismo Shin, a salvação que acontece no shinjin (1) faz com que nasçamos na Terra Pura, mas não renascemos em uma Terra Pura por ela ser outro mundo, outra vida. Nascer nela não é afirmar que há uma Terra Pura existindo ao longe. Quando morro, a Terra Pura é o exato instante de minha morte. Não é um lugar, um mundo diferente.

Rennyo Shonin, grande liderança do budismo Shin no século XV, enfatizava “a grande questão do além-vida”. Essa ênfase não trata do que acontece após a morte, mas do período em que atravessamos o oceano da vida. Trazer a consciência da morte à questão do além-vida é o ponto central do budismo Shin. Quando olhamos a morte, ela é muito sombria, mas olhamos para ela com muita carga sobre nós. Não sabemos quando, mas um dia morreremos, e em nossas vidas diárias há coisas que tendemos a ver como de grande ajuda, tais como saúde, dinheiro e heranças. Podemos nos tornar cegos, além de cegar a outros, pelo apego a essas coisas. Mesmo assim, atingir o limiar da vida só fica claro quando somos despidos de tudo, ficando apenas com aquilo que possuíamos ao chegar neste mundo. Se eu puser o problema de minha própria morte em foco, agora, terei clareza sobre estar ou não estar salvo, sobre ter ou não ter apoio.

No Japão, o tratamento médico básico para com pacientes de câncer é não deixar que eles saibam de suas condições terminais. Nos Estados Unidos, os pacientes ficam sabendo, e os médicos e enfermeiros se envolvem diretamente na luta travada por ele contra a doença. Se isso acontecesse em minha vida, o que eu faria? Antes que aconteça, enquanto ainda tenho saúde, esse é um problema sobre o qual devemos pensar. Para aqueles que vivem em shinjin , como respondem ao problema de suas próprias mortes? No processo de lidar com tais questões, o ponto de apoio na fé se torna muito mais claro.

Em minha própria vida, aos treze anos, minha vida familiar se encheu de grande escuridão devido às mortes de minha mãe e avó, à doença de meu irmão e à minha reação negativa ao segundo casamento de meu pai. Alguns anos depois, meu irmão morreu. Eu mesmo estava tão doente que diziam que eu não chegaria aos vinte anos. Minha vida em família foi engolida por uma espécie de escuridão pessoal, de negra confusão. Fugi de casa diversas vezes, graças à minha reação negativa a meu pai e madrasta. Entrei na faculdade em 1945, mas logo fui convocado e segui para Hokkaido no fim de junho do mesmo ano. Um mês depois, a guerra havia terminado e eu fui enviado de volta à faculdade – outra experiência muito confusa para mim, não apenas em termos pessoais mas também sobre como eu me sentia com relação à lealdade a meu país.

No final do ano seguinte me transferi para Kyoto, a fim de estudar o budismo Shin e buscar algum tipo de estabilidade, e lá conheci o professor Tada. Cerca de um ano após minha transferência eu tive contato com o Sutra da Contemplação e a história de Ajatasastru, o jovem rei de Rajagriha que matou o pai e tentou matar também a mãe. Fui profundamente afetado por essa história, pelo peso do karma acumulado com as ações de Ajatasatru, um peso monstruoso que ainda assim o conduziu a buscar os ensinamentos do Buda e, por isso, ser salvo. Então, aos vinte e um anos, em uma noite de outono senti o impacto do nembutsu em minha vida. Foi uma experiência que não tenho como esquecer. Naquele período, escrevi uma longa carta a meu pai e madrasta. Ser tocado pelo Dharma e começar a enxergar a mim mesmo foi um verdadeiro despertar. A partir daquela experiência, senti minha vida mudar – mudança que ocorreu em meu interior, através de minha família, de minha madrasta, irmã e irmão, uma mudança vinda por meio do professor Tada, meu professor que tempos depois me daria uma lição profunda sobre o modo como lidou com o problema de sua própria morte.

Pouco antes do professor Tada morrer, aos setenta e cinco anos, o médico disse a sua esposa que ele teria apenas alguns dias de vida. Quando o médico foi embora, o professor perguntou à esposa: “O que o doutor disse? Se há algo que devo saber, deixe-me saber tudo!”

“A morte está bem perto”, ela disse.

“Certo!”, disse o professor Tada. “Acho que já posso deixar tudo para trás.” – e, pouco depois, veio a falecer.

Ser capaz de aceitar, dizer “acho que já posso deixar tudo para trás”, foi sua maneira de lidar com aquele momento, mas sua aceitação também foi devida à capacidade de sua esposa em dizer abertamente a verdade a ele. Há muito que podemos aprender a partir da atitude da Sra. Tada, de sua capacidade de contar ao marido qual era sua condição real. Todos somos humanos envolvidos em relacionamentos, nem sempre fáceis de serem abandonados no momento da morte. Mas quando ela chega, seremos capazes de abrir nosso coração com tanta sinceridade? Conseguiremos dizer tão claramente quaisquer informações que precisem ser ditas? O relacionamento dos Tada aponta para a profunda fé do professor e de sua esposa. Quando pensamos em nossa própria morte, sofremos nosso próprio sofrimento, mas ela ao mesmo tempo trará muito sofrimento àqueles que nos amam: família, amigos.

Descrevemos shinjin como uma experiência de despertar, mas ela também é uma experiência de shinjitsu – coração e mente verdadeiros em nossas vidas. Nessa dimensão da verdade do shinjin está o recebimento da vida do Buda em nossas vidas. Nesse recebimento, nosso nascimento na Terra Pura é assegurado. Somos um com o Buda. Sendo assim, e compreendemos shinjin dessa maneira, há sempre uma forma de transcender a morte, atravessá-la, ser capaz, como o foi o professor Tada, de “deixar tudo para trás”. Shinjin significa experimentar a verdade como ela é – que nos tornamos um com Amida, neste aqui e agora, o que quer dizer que o Buda sempre toma conta deste mundo egóico infernal que nós criamos.

Então, quando morremos, simplesmente morremos. Não há problemas nisso. Nesse ponto está a Terra Pura.

Segundo o autor ” Shinjin tem sido traduzido, às vezes, como “fé” (faith), mas utilizar essa palavra inglesa, sem maiores explicações , seria inadequado, além de potencialmente enganoso. Proponho que, assim como nirvana e nembutsu, shinjin se torne um daqueles termos budistas adotados sem tradução no vocabulário estrangeiro.