Homenagem aos 3 samurais pela paz: Shigaraki, Inoue e Kakehashi

postado por Cris / 5 comentários

Continuo de molho, esperando a marcação da cirurgia do aneurisma que costuma não ter sintoma prévio, só quando estoura e aí é escandaloso. Ou não. Há quase 40 anos perdi meu filho de 7 anos, numa madrugada da Bahia em morte súbita por rompimento de aneurisma cerebral e vivi 3 anos em séria depressão, o que me trouxe de volta a São Paulo. Meu pai teve aneurisma rompida da aorta abdominal aos 60 anos, foi uma hemorragia danada, teve que ser operado urgentemente, se recuperou bem e viveu até os 86 anos quando teve outro derrame, este fatal.

Aneurisma é um defeito congênito das veias por fatores hereditários. Eu mesmo fiz cirurgia preventiva da aorta abdominal em 1999, na época, uma grande operação e fiquei varias semanas de cama. Hoje, graças ao avanço da medicina e da tecnologia, é bem mais simples com laparoscopia e material protético especial.

De todo modo, este molho está sendo providencial para ler, meditar e escrever. Neste atraso especialmente burocrático, pensei naquele burocrata que quase me mata no Chile, quando lá estive exilado na época do Allende. Também meditei sobre o carma budista como causação, ou seja, não posso negar que sou filho do meu pai, carregando não só os genes do aneurisma mas certamente, outros genes de todos os tipos dele e da minha mãe. Meditei sobre a Luz do Buda que me fez perceber esse defeito congênito durante a Caminhada de Santiago. Levei a sério a nossa vulnerabilidade e fragilidade, não só física como também mental, apesar dos avanços da ciência e tecnologia. Voltei a tomar consciência do precioso ensinamento budista da interdependência, em que a minha vida depende de tantos fatores e de tanta gente. E ainda assim, vem a mortalidade, o tempo a nos limitado nesta forma de vida orgânica. É a impermanência.

Mas carma como causa é, especialmente, causa-ação, o fazer, tendo consciência, por parcial que seja, das causas e condições que explicam o próprio existir, hoje, aqui-agora.

Estava pensando nisso, quando recebo a notícia da morte do Mestre Takamaro Shigaraki no Japão, com 88 anos. Eu o encontrei algumas vezes e até pensava em convidá-lo por ocasião do lançamento do livro dele em português que a nossa equipe de tradução esta processando. Professor universitário e monge, ele sempre apontava o Shin-Budismo no sentido da atualização doutrinária e ação social, mesmo não sendo muito do agrado da ortodoxia. Há um mês morreu Mestre Hakko Inoue, o bispo que permitiu que eu fizesse a ordenação em 1998 e apoiou a ordenação da atual Monja Cris, do Templo Shin de Brasília,  em 2013, um realizador incansável de obras budistas, muitas vezes à frente da Ordem, tanto no Japão como no Brasil. Foram encontros preciosos e significativos, tanto no ano passado, quando fomos a Kyushu, Sul do Japão, a convite dele para a Cris realizar o primeiro oficio como Monja E-gen no belo templo dele, há dois anos quando o acompanhei pessoalmente pelo Brasil – Rio/Belém/ Tome-Açu/Brasília como muitas outras situações de convívio, tanto no Brasil como no Japão. E, há dois meses morreu o Mestre Jitsuen Kakehashi, com 87 anos, a figura maior da “curadoria de doutores” da Ordem com extensa produção doutrinária.

Eu o encontrei pela primeira vez há mais de dez anos quando em visita oficial ao Brasil, na recepção, eu ofereci um copo de caipirinha. Não só gostou muito, pediu outro copo e ainda ofereceu mais um à sua esposa.   Eu o busquei algumas vezes no Japão, para comentar seus livros que lia, sempre o incomodando sobre dificuldades da atualização dos ensinamentos do Shinran Shonin em uma cultura não budista como no Brasil. Ele, com muita cortesia me aturava e com muita paciência me re-explanava.

Para mim são os 3 samurais do Shin-Budismo, que tive o grande privilégio de conhecer pessoalmente, beber diretamente na Fonte da sua Sabedoria e ser banhado na Luz da sua Compaixão.   Recordo os termos do Ondokussan: “Hei de agradecer os benefícios dos mestres e bons instrutores, mesmo que para isso meus ossos se estilhassem”.

Se carma é causa-ação, estou pronto para continuar antes que meus ossos se estilhassem, desde que a burocracia marque logo a minha cirurgia e graças ao avanço da ciência e tecnologia que prometem rápida recuperação.   Sei que vocês esperam isso e eu também, como esperança no futuro projetada em vocês. Mas relaxem.

Grande abraço a todos. Gasshô e NAMANDABU, NAMANDABU, NAMANDABU.