Viagem à terra pura (1): meus pés

postado por Cris / no comentários

Saí para caminhada solitária como momento de aprofundar a inflexão/reflexão.  A intenção era apenas caminhar, solitário, e fazer o Caminho de Santiago de Compostela na direção oeste, Costa da Morte, Fistera (Finis Terra) que assim é chamado não só porque ocasionalmente o belo e sereno mar enfurece ocasionando naufrágios como os romanos acreditavam que era o limite da civilização.

Escrevo esta crônica no dia 08 de julho, antes do jogo de futebol “Brasil versus Alemanha” pela Copa de 2014, em que parecia que o futuro do país dependia dos pés dos onze jogadores.

É que voltei ontem de andança solitária pela Espanha, passando pelo Caminho de Santiago de Compostela na direção do Farol de Fisterra e a Cris, impressionada com o estado resultante dos meus pés que perambularam por aí, teve a intrepidez de apresenta-los ao mundo logo após o retorno. Coisas de uma companheira sensível e da facilidade propiciada pela alta tecnologia de comunicação imediata.

Mas não quero que fiquem preocupados com o aspecto físico dos meus pés. Assim, queria esclarecer porque viajei, o que vi e refleti nestas alturas da vida e o que ficou na minha mente e no meu coração, além dos pés inchados e arroxeados.

Acho que já caminhei muito pela vida. Ainda ouço o silencio opressor e deprimente da Copa do Mundo de 1950 em que o Brasil perdeu, surpreendentemente, o jogo final. Foi o famoso Maracanazo com Gighia do Uruguai como herói e o nosso Barbosa como vilão. Desde então, não só o estado científico, tecnológico e de conforto material atingiu um nível inusitado como a situação socioeconômica e política do mundo e do Brasil mudou muito. E o ser humano mudou? Não sei, embora pessoal e pretensamente tenha participado mais do que o normal nessa movimentação sócio-política, primeiro como cristão, depois como marxista e agora como budista que sou há 20 anos. Ah sim, a minha família e o meu circulo de amizades mudaram muito.

Ainda assim – e isto independe da condição pessoal, idade ou circunstâncias – há momentos em que nos pomos a olhar o transcurso da nossa vida e o vemos vazio, inútil. Especialmente na pós-modernidade em que sentimos o fantástico avanço tecnológico e a ampliação das possibilidades de liberdade individual se materializando cada vez mais como oficio da ilusão e artificialidade a se perder na esterilidade desértica.

No meu oficio estava sentindo vergonha e constrangimento por não conseguir mostrar uma paisagem diferente da desértica, mais fértil, ampla e duradoura que as pessoas pudessem olhar de frente e caminhar tranquilamente, sem pressa.

Será que este ofício vigente de viver – performático e imediatista – é para todos, jovens, maduros e idosos? Para todas as classes sociais, pobres, remediados e ricos? Vale tanto para o Ocidente como para o Oriente? Sempre foi assim?

Pedi para a Cris (Monja E-Gen) e a sanga cuidarem do Templo e saí para caminhada solitária como momento de aprofundar a inflexão/reflexão.  A intenção era apenas caminhar, solitário, e fazer o Caminho de Santiago de Compostela na direção oeste, Costa da Morte, Fistera (Finis Terra) que assim é chamado não só porque ocasionalmente o belo e sereno mar enfurece ocasionando naufrágios como os romanos acreditavam que era o limite da civilização.

Embora não tão longo como o caminho completo que são mais de 1.000 km, foram muitos quilômetros de subidas e descidas, vários dias, dormindo em albergues, passando por vilas e povoações, até chegar ao Farol. Mas, também corri pelas rodovias de alta velocidade, chegando até altas montanhas de Picos da Europa, visitei o Museu do Prado, passeei por Madrid e Lisboa, metrópoles de outrora que continuam no presente.

Volto revigorado, tendo encontrado muitos budas e bodisatvas pelo caminho. Volto com a certeza de que a Terra Pura, palavra muito usada no Budismo da Terra Pura, é aqui e agora, está dentro de nós, e não fora, e pode ser evocada a qualquer momento pelo Amida e isto vale tanto no Oriente como no Ocidente e para todos os tempos.

O grande aprendizado para o meu oficio foi de ser simples, verdadeiro e persistente. Aliás, é isto que a Sanga vem me ensinando.

Assim, resolvi escrever para budistas e não budistas, parentes e amigos que não frequentam o Templo nem acessam o site de terrapuradf.org.br Estou criando uma série regular de crônicas chamada A Viagem para Terra Pura. Vou tentar ser persistente em uma linguagem simples e verdadeira.

Agora sim, vai ser uma longa caminhada acompanhada de vocês.