Participação do Monge no Prêmio ODM-Brasil

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Senhora Presidenta Dilma Roussef

Tive a grande honra de fazer parte do Júri do Prêmio ODM-Brasil (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) 5ª Edição, 2013/2014 que a senhora fez por bem outorgar às práticas selecionadas entre mais de mil projetos apresentados pelas organizações civis e prefeituras de todo o país, no ultimo dia 23 de maio.

Por motivo de força maior, não pude prestar meus cumprimentos protocolares na ocasião como representante eleito do Júri composto por quinze profissionais de comprovada experiência e idoneidade convocados de todo país.

Assim, em respeito a esta representação, peço licença para enviar-lhe esta Carta Aberta.

Em primeiro lugar, devo estar expressando a satisfação de todos os membros do Júri que participaram do processo para constatar que o desenvolvimento econômico e social do País não é feito apenas por grandes projetos e sim por uma rede invisível de sustentação que constitui a sociedade civil que se estende por rincões mais longínquos do Brasil, como bem disse o Ministro Gilberto Carvalho da Secretaria Geral da Presidência da República.

No intimo, com ponta de orgulho mas com muita dor, lembrei de sensação parecida quando trabalhei com o Presidente Allende no Chile, coordenando as empresas que eram geridas pelos próprios funcionários e operários.  Entretanto, na longa carreira de técnico governamental no Brasil, planejara, programara e executara grandes projetos, sempre na certeza de que estava almejando o bem público, mas hoje reflito que a minha atitude era de soberba tecnocrática.  Foi por isso que fiquei particularmente emocionado ao examinar essas pequenas iniciativas que expressam a imensidão deste país tropical, com suas grandes disparidades e enorme potencialidade.

Peço licença para citar o nosso Darcy Ribeiro: “Estamos nos construindo para florescer amanhã como uma nova civilização mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma, mais alegre porque mais sofrida, melhor porque incorpora em si mais humanidades, mais generosa porque aberta à convivência com todas as culturas e assentada na mais bela e luminosa província da Terra”.

Sim, as pequenas iniciativas que examinamos apontam para a construção desse novo modelo, a solidariedade digna no relacionamento do homem com o semelhante, o progresso harmônico respeitando a natureza e, individualmente, sem abrir mão da felicidade imaterial, amorosa, em que o valor tem mais importância que o preço.  São práticas a serem apoiadas, divulgadas, replicadas.

Encorajado por Darcy, assumo a ousadia de dizer que é um modelo buscado pelo mundo todo, após a queda do Muro de Berlim, após a desilusão do Primeiro Mundo com índices decrescentes de felicidade apesar do extraordinário desenvolvimento tecnológico pós-industrial, após os BRICS com índices crescentes de poluição ambiental e de frustração, após a desigualdade crescente nos países mais pobres.  Esse mal-estar, não há Fifa que resolva ou remedeie.

Sei que o motivo de força maior mencionado inicialmente se deveu à falta de tempo em meio à entrega do troféu e certificado às trinta iniciativas ODM, valorização da Arena de Participação Social no Ciclo das Politicas Públicas, menção ao Marco Regulatório das Organizações Civis e à sua prestação de contas de viva voz referente às realizações voltadas para as camadas sociais menos favorecidas que a mídia não notifica usualmente.  Tenho certeza que essas medidas redistributivas e compatíveis com a estabilização e crescimento econômico, juntamente com os projetos apresentados ao ODM, compõem necessariamente o novo modelo brasileiro que podemos nos orgulhar, apresentando-o ao mundo.

É a segunda vez que lhe escrevo publicamente.  A primeira vez foi quando visitei Fukushima como monge budista após a tragédia do vazamento nuclear e fiquei estarrecido com o sofrimento incubado, aberto e oculto do povo japonês, tão desnorteado como outros povos com os rumos da alta tecnologia e do alto padrão material de luxo e desperdício, cheio de conflitos e contradições que afetam a vida pessoal, familiar e social de toda comunidade.  Tentei alertar a senhora de que este modelo econômico-energético está falido, mesmo no Japão de grande ordem ética e de respeito à natureza.

Agradeço mais uma vez a sua atenção.

Com todo respeito

      Brasília, 02 de junho de 2014

Ademar Shôjo Sato

Templo Shin-Budista de Brasília