Relacionamentos são o reino do despertar

postado por Cris / no comentários

Jeff Wilson.  Buddhism of the heart. Reflections on Shin Buddhism and inner togetherness. Boston, Wisdom Publications, 2009. Trad. Cris E-gen

Sempre pensei que alcançaria o despertar no dia em  que conseguisse controlar a minha mente, e que existiam duas categorias na minha vida:  “coisas budistas” (meditação, estudo do Dharma, conversar com professores etc) que eram boas e úteis ao lado das “coisas não-budistas”, como ver TV, tomar sorvete, deitar no sofá sem fazer nada, deixar minha mente divagar etc), que eram improdutivas e, de alguma maneira, contribuíam para o meu crescente sofrimento por me apegar às tarefas mundanas. Tentava arduamente ser um “Budista perfeito”, deixando de lado as amizades para cultivar momentos silenciosos de auto-reflexão, distanciando-me da família e afastando-me dos afazeres cotidianos, sob a desculpa de serem meras distrações.

Quanto mais tentava, menos conseguia estar à altura desse ideal. Não existe uma maneira de me desvincular desse mundo, porque estou irremediavelmente enredado nele. Descobri também que não quero ser um eremita isolado no topo de uma montanha para sempre.  Fundamental é que não sou um sábio, embora tenha me esforçado desesperadamente para sê-lo.

Desapegar-me das “coisas budistas” foi muito difícil. Perguntava-me se tinha perdido tempo perseguindo um objetivo impossível  ou  se buscar o despertar não foi uma perda de tempo, agora que devia retornar às atividades de rotina. Estava sucumbindo às minhas paixões ilusórias? Se não conseguia demarcar o “bom” do “mau”, o “religioso” do “mundano”, como poderia traçar um caminho para a verdadeira mente tranqüila?

Muitas das minhas verdades se mostraram ilusões, quando deixei de lado as idéias pré-concebidas. Antes de tudo, um despertar que não lide com o mundo real é falso.  Dharmakaya, a interdependência última de todos os fenômenos, a percepção do que consideramos ser o resultado da iluminação no Budismo Mahayana, inclui o sagrado e o profano, o monastério e o mundano, companheiros de caminhada, ex-namoradas,  encontros casuais,  engarrafamentos e dias de chuva. Tudo junto. Como poderia o verdadeiro despertar não incluir 99% da vida? Também, no Budismo, consideramos que a verdadeira sabedoria é compaixão. A perfeita compaixão é a realização da perfeita sabedoria. Onde deveríamos ser compassivos, senão nos relacionamentos, aqui e agora, nessa vida?

Antes, achava que os relacionamentos eram os grilhões que me acorrentavam a assuntos que não tinham nada a ver com o caminho budista. Mas agora minha atitude mudou. Não considero que os relacionamentos sejam cordas que me amarram.  Ao contrário, sem eles, não tenho a menor possibilidade de experimentar o despertar. Também aprendi que esses relacionamentos são as únicas grandes oportunidades que tenho para aprender que a serenidade, compaixão e sabedoria fazem parte desse mundo, significando o verdadeiro despertar e realização do Budismo.