Revendo velhos conceitos

postado por Cris / 01 comentários

A maioria das pessoas não tem a oportunidade de rever velhos conceitos. Eu tive.

Minha relação com o budismo é algo um tanto complexo. É uma relação próxima e distante ao mesmo tempo. É também uma mistura de carinho, incompreensão e um pouco de trauma (que espero superar!). Meus avós, japoneses, são budistas praticantes – não sei se o termo se aplica ao budismo. Eles mantêm um altar em casa, onde acendem incensos várias vezes ao dia, e frequentam ofícios – sempre com a faixa ao redor do pescoço e um “mini-terço”, que hoje sei que se chama nenju.

Desde pequena, meus pais me levavam a um templo budista em São Paulo. Como eles não são budistas, geralmente íamos ao templo apenas para participar de cerimônias fúnebres, e de outras ocasiões especiais.

Lembro como se fosse hoje a sensação que experimentava ao chegar ao templo.

Eu olhava para cima e achava sua arquitetura linda! A nave, diferente de qualquer outro prédio de São Paulo e de qualquer outro local religioso que conhecia, era algo imponente, no alto de uma escadaria igualmente impressionante. Brincava nessa escadaria com meus primos, subindo e descendo, nos momentos anteriores ao início da cerimônia. A cerimônia em si, para uma criança, era tediosa.

Quando chegávamos, o monge já estava instalado na frente do altar, sentado de costas para o público, onde permanecia durante todo o tempo. Nas raras vezes em que se dirigia a nós, falava uma língua estranha, que eu não conhecia. Também cantava músicas que não faziam sentido para mim – e só os mais velhos o acompanhavam. Em suma, eu não entendia nada daquilo e entendia menos ainda o motivo de estarmos ali. O tempo passava devagar e eu não via a hora de voltar para casa.

Meus avós nunca me explicaram os rituais budistas. Apenas me pediam para ir ao altar, acender incenso e orar por todos nós.

E assim naturalmente acho que fui afastando o budismo da minha vida. Quando eu já era independente o suficiente para ficar em casa sozinha por um par de horas, eu preferia não acompanhar meus pais ao templo.

Enquanto morei em São Paulo, não tive interesse em conhecer o budismo. Não era bem uma indiferença, mas uma espécie de trauma mesmo. Eu achava que já tinha visto o que tinha para ver. Acredito que essa seja, ainda hoje, a opinião de muitos descendentes de japoneses budistas.

A maioria das pessoas não tem a oportunidade de rever velhos conceitos. Eu tive.

O interesse pelo budismo foi despertando gradativamente em mim, depois que me mudei pra Brasília (há 2 anos e meio). Procurei ler sobre o budismo e me aproximei do Templo, primeiramente por meio da Quermesse. Hoje frequento o templo – por livre e espontânea vontade – e acabo de terminar o Curso Básico de Meditação e Budismo. Tudo mudou! Hoje vejo o budismo, o templo e seus rituais de modo totalmente diferente. Mas vamos deixar essa parte da história para o próximo post…

Natália Shimada

28.11.2013