Vida infinita

postado por mongesato / no comentários

Vocês foram convidados para celebrarmos juntos o Dia de Finados, 02 de Novembro, seguindo e respeitando a longa tradição cristã deste país.  Estou até estranhando a presença de jovens pois eles, normalmente, gostam dessa data por ser feriado e não porque acompanham os mais velhos para visitar túmulos e lembrar de entes queridos.

E, de fato, na tradição católica, as denominações deste dia são muito enfáticas como Dia dos Mortos, Dia dos Fiéis, Dia de Todos os Santos, Vida Eterna de Velhos Amigos, etc.

Mas, todas as culturas respeitaram e respeitam os antepassados como reconhecimento e agradecimento de estarmos na Vida.

Os budistas japoneses têm uma data especial para a celebração dos antepassados que é dia 15 de julho.  Mas é também tradição deste Templo reservarmos o oficio de primeiro sábado de cada mês para homenagear os falecidos daquele mês, como lembrança carinhosa de parentes e amigos.

É verdade que no budismo, a vida é representada como 生死 (shouji), que significa ciclo de nascimentos e mortes, ou seja, a morte compõe a própria Vida, não haveria nascimento sem a morte, bem como não haveria morte sem nascimento.

Portanto, a celebração de hoje é sobre a Vida e isso fica bem claro na conclamação que fazemos inicialmente com o SAMBUJÔ.

Primeiro, louvamos e nos alegramos com a presença do Buda Amida neste recinto.  Buda Amida é o Buda da Vida Imensurável e da Luz Infinita.  É a própria Vida que não tem limitações de tempo nem de espaço.  Alguns até preferem o significado de Deus Cósmico.  Cosmos é tão imenso em todas as direções e profundo como Buraco Negro que a gente pode se perder ou sentir medo.  A diferença e vantagem para os seguidores do Caminho do Shin-Budismo é que Buda Amida nos recebe na sua Terra Pura, nos ilumina e nos acalenta, incondicionalmente, com sua Luz que nos abraça e jamais nos abandona.

Segundo, louvamos e nos alegramos com a presença do Buda Sakyamuni neste recinto.  Buda Sakyamuni se chamava Sidarta Gautama, era um príncipe indiano que viveu há 2.500 anos na Índia.  Passou a ser chamado de “Buda, o Desperto, o Iluminado” e viveu 80 anos, espalhando ensinamentos preciosos sobre a Vida e é ele que fala em Buda Amida como Amitayus e Amitathaba.  A vida dele pode ser marcada por três pronunciamentos: lendariamente, quando nasceu; na primeira fala, após a iluminação e na hora da morte.

Lendariamente, ao nascer, teria dado sete passos e disse: “Entre o céu e a terra, somos o dono dessa vida”.  Isso significa que a humanidade pode sim superar os seis mundos do sofrimento representados pela angustia do medo, pela insatisfação famélica, pela ameaça da sobrevivência competitiva, pelo sentimento revoltante de injustiça, pela solidão da incomunicabilidade presente e pela atrocidade da êxtase como ilusão efêmera.

Muitos se lembram da primeira fala perante seus cinco ex-companheiros peregrinos que o rejeitavam por ter abandonado seis anos de práticas ascéticas, após viver 29 anos no palácio imperial, ele disse: “Vida é sofrimento, não é o que desejamos”.  É a famosa Primeira Nobre Verdade.

Postura pessimista, negativista, conformista?  Não, ao contrário.  Poucos se lembram das suas ultimas palavras, perante inúmeros discípulos que se entristeciam com a sua despedida, aos 80 anos: “Faça de você a sua luz. Confie em você, não dependa de mais ninguém. Faça dos meus ensinamentos a sua luz. Confie neles, não confie em nenhum outro ensinamento”.  Daí que se fala nos Três Tesouros do Budismo, Buda (o Iluminado), Darma (os ensinamentos budistas) e Sanga (a comunidade), onde há a descoberta e multiplicação da luz de cada um com a Luz dos ensinamentos budistas.

Terceiro, louvamos e nos alegramos com a presença de budas e boshisattvas de todas as direções (tempos e lugares) neste recinto.  Aí estão presentes os nossos entes queridos que sejam nossos antepassados, nossos pais e parentes falecidos, nossos queridos amigos desaparecidos.

Quantas sementes do bem, quantas luzes de sabedoria e compaixão de ensinamento espiritual eles nos deixaram!  Como disse o Dalai Lama no Dia de Finados: “Quando morremos, nada pode ser levado conosco, com a exceção das sementes lançadas por nosso trabalho e de nosso conhecimento espiritual.

Com palavras diretas ele está atualizando o sentido da citação que antecede a Cerimonia da Tomada de Refugio nos Três Tesouros de Budismo: “Raro e difícil é receber a vida na forma humana e eu a recebi.  Raro é difícil é ouvir o ensinamento do Buda e agora o ouço.  Se não nos libertarmos nesta vida, quando isso ocorrerá?

Quando lembramos os mortos, atualizamos a Vida.