Jovens de Fukushima (II)

postado por mongesato / 3 comentários

Quem, recentemente, melhor conceituou a deplorável natureza humana não foi nenhum religioso, filósofo, sociólogo, antropólogo, psicológico ou político.  Foi Jacques Rogge, Presidente Mundial da Comissão Olímpica Internacional (COI) que disse na televisão: “Trapacear é da natureza humana”.  Acredito que não estava falando de si próprio nem justificando as obras que serão construídas no Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos de 2016.  Estava se referindo ao doping dos atletas e o cuidado para coibi-los.

Coincidentemente, na mesma semana, Lance Armstrong, ciclista americano famoso que perdeu seus títulos mundiais por doping respondeu: “Apenas participei do sistema”.

Que sistema é esse?  Como fica o budismo que trata justamente da natureza humana e do sistema que a condiciona?

Viajo sistematicamente ao Japão desde 1966 e acompanhei o processo de rápida recuperação econômica, inovação tecnológica fantástica, conforto crescente e entusiasmo social.  Mas também observei seu auge e estagnação.  Hoje, é enganoso entender que os jovens de Fukushima estão apenas defendendo a própria segurança e tranquilidade ao denunciar a radiação nuclear e protestar pelo atraso das medidas cabíveis.  Estão expondo mente e coração intranquilos (不安心) que está perturbando a natureza humana, bem como mente e coração desconfiados (不信心) que pairam pelo mundo, pondo em xeque não só a política local, mas a organização econômica e social vigente globalmente.

É verdade que, na eleição que ocorreu um ano depois da tragédia de Fukushima, mudou-se o governo, como decorrência dos protestos puxados pelos jovens que denunciavam a inépcia paliativa da sua politica.

Mas, e daí, se as medidas propostas pelo novo governo são piores, apenas de fachada!  A corporação diretamente responsável por Fukushima começou aos poucos a indenizar a população diretamente afetada, o problema é que a usina volta a funcionar!  Nem o governo nem as corporações informam com precisão o estado de quase cinquenta usinas existentes no país, afinal, a radiação letal não tem forma, cor ou cheiro e os efeitos não aparecem imediatamente!  Órgãos públicos emitem informações supostamente científicas, institutos de pesquisa publicam avaliações supostamente infalíveis. Podemos confiar nelas se variam a toda hora?

Os dados sobre o ocorrido similar em Chernobyl (Rússia) e Three Miles (EUA) podiam servir de referência de salvaguarda, quando notamos que parte essencial desses dados são guardados como segredo de estado e segurança nacional pelos respectivos governos.  Alemanha e França proibiram usinas nucleares no seu território. Peguntamos que ética é esta que permite exportação para o resto do mundo da tecnologia comprovadamente suspeita para a saúde humana e insegura para a humanidade por gerações!  Até o Japão, sem conseguir equacionar internamente um sério problema, está prestes a firmar um acordo bilateral no campo da energia nuclear com o Brasil.

A questão nuclear não é um problema simplesmente tecnológico ou puramente econômico, mas social e humanitário.  O budismo nos ajuda a refletir sobre a natureza do sistema vigente e também do ser humano. (continua)