Jovens de Fukushima (1)

postado por mongesato / no comentários

Por incrível que pareça, quem criticou o “Padrão FIFA” foi um japonês, o goleiro da seleção de futebol que foi uma das últimas colocadas na Copa das Confederações.

Ele disse que os jogadores foram roubados no quarto, o atendimento geral no hotel foi ruim e sentiu insegurança nas ruas.  Isso contrasta com as entrevistas bem comportadas que vimos durante a Copa de jogadores, técnicos e cartolas, tendo por trás o vistoso painel de patrocinadores como Visa, Sony, Nike, McDonald, Hyundai, Budweiser, Itaú e outros ícones menos conhecidos do capitalismo contemporâneo.  A reclamação do goleiro, que nem titular era, compõe o quadro de mobilização popular que ocorreu fora dos estádios modernos com cobertura para proteger do sol e da chuva.  Parecia até torneio de tênis, sem pobres na torcida, gramado perfeito de campo de golfe, ventilação ecológica e cadeiras bonitas coloridas de plástico reciclável.  Mas não estávamos no Japão.

Vimos recentemente as manifestações no Brasil com os jovens saindo às ruas, como foi em Diretas Já ou Fora Collor.  No Japão, após o tsunami e os vazamentos da usina de Fukushima, são exatamente os jovens que vêm lutando contra os políticos e corporações, cujo objetivo é dar continuidade às usinas nucleares que historicamente mostraram ser perigosas, nocivas e beligerantes.

Como vocês sabem, o Japão representa hoje alto padrão de bem estar material.  Recuperou-se após o abalo da Segunda Guerra Mundial, com duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, cujo resultado foi o genocídio imediato e efeitos genéticos a médio e longo prazos que se estenderam a gerações posteriores.

Quem viaja ao Japão hoje fica muito admirado.  Nota a eficiência do transporte coletivo, ruas imaculadamente limpas, carros modernos que fluem bem, shoppings fantásticos, lojas, restaurantes e cafés muito chiques, povo bem vestido, bem comportado e bem de saúde.  Parece ótimo para turistas, porque a beleza natural é exuberante, existe uma combinação equilibrada de prédios modernos com bem conservados templos budistas e xintoístas, muito verde compensando a aridez do asfalto e concreto, além da sensação de segurança.  É o próprio “Padrão FIFA” funcionando no dia-a-dia.

Entretanto, foram exatamente as usinas nucleares como as instaladas em Fukushima, e mais de 40 em todo país, que sustentam o padrão de desenvolvimento econômico e o bem estar material vigente. É impossível sentir frio em qualquer ambiente no Japão, onde a calefação é altíssima. Para vocês terem uma idéia, até os assentos das privadas no Japão têm aquecimento! As usinas nucleares são a fonte dessa felicidade. Uma felicidade que se baseia na ilusão do prazer desmedido não pode ser permanente.

Os jovens não se limitaram às mobilizações e passeatas. Superaram a inércia dos preguiçosos e a passividade dos reacionários , deslocando-se para as zonas atingidas, acolhendo os refugiados que tiveram suas casas destruídas pelo tsunami e aqueles que abandonaram as casas nas regiões próximas ao vazamento nuclear, onde a radiação era intensa.

Ouvi relatos emocionados tanto dos refugiados agradecidos como desses jovens que conseguiram sentir o calor da própria bondade e afeto de que foram capazes.

Mas essa emoção foi se transformando, porque o estrago da natureza foi reparado, mas não o resultado do que a ganância das corporações produziu. Os jovens, agora, questionam o modelo vigente erigido por uma organização socioeconômica que busca, cobiçando o lucro insano, a disseminação dos vícios da antiética.

(continua)