Cuidado com as badernas (?) na Copa

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foto: Ricardo Matsukawa

CUIDADO COM AS BADERNAS NA COPA

Monge Ademar Shôjo Sato

   Responsável pelo Templo Budista de Brasília

 

No meu pequeno gabinete de jovem professor da Faculdade de Economia da USP, que ficava na Rua Dr. Vila Nova, quase esquina com a Maria Antônia, senti um odor estranho, ouvi explosões e gritos.  Na sua importante crônica sobre a “baderna” de quinta-feira em São Paulo, o irônico Elio Gaspari disse que “… alguns sobreviventes da primeira batalha, sexagenários, não cheiram mais gás, mas o bouquet dos vinhos”.

Naquele longínquo dia de 1968, senti o gás, saí às ruas e comecei a minha luta contra a ditadura que me levou à perseguição política, exilio no Chile, golpe sangrento, quase fuzilamento, retorno ao Brasil, prisão e tortura.  Hoje sou um monge budista e gosto do bouquet dos sakês, mas continuo radicalmente contra as manobras de poder que obstam a construção de um mundo mais equânime e harmonioso.

Muito pior quando tal poder é fechado e obscuro para agir de forma traiçoeira e insinuante.  O mesmo Gaspari, insuspeito como grande jornalista, relata que às 17 horas, os jovens começam a se reunir nas escadarias do Teatro Municipal, centro velho de São Paulo.  Desde que seja pacífica, nada mais é que o exercício do poder aberto de manifestação democrática contra o poder público que apresentou cálculos de aumento de tarifa de transportes, argumentando não poder conceder mais subsídios.  Disputa politica que os vereadores e deputados eleitos pelo povo devem discutir e decidir.

Objetivo, o jornalista descreve que às 18,30 horas, o grupo de jovens começa a passeata na direção da Praça da República, a 500 metros do Teatro.  Em todo mundo é natural que as manifestações se movam, até para chamar a atenção das pessoas que estão nos escritórios, nas lojas ou caminhando.  Os guardiões – policiais ou soldados – até orientavam o trânsito e guarneciam as agencias bancárias.  Clima de Londres, como brinca Gaspari, apontando a manutenção civilizada da ordem e da tranquilidade.

A entrada da Praça da Republica para a Rua Consolação, via Av. Ipiranga, estava parcialmente interditada.  Há um pequeno titubeio, mas o grupo prossegue.  Chega-se à esquina com a Rua Maria Antônia, 100 metros adiante.  São 19,10 horas.   Nenhum bloqueio, nenhum megafone, nenhuma advertência, ninguém parlamentando.  De repente, homens uniformizados de cinza lançam rojões, bombas de gás, as chamadas granadas Condor sobre a multidão.  Estabelece-se o clima de Istambul,nas palavras do próprio Gaspari.

Cinegrafistas registraram uniformizados quebrando vidros da própria viatura.  O jornalista faz outra constatação aterradora: um grupo mascarado com pedras e objetos na mão, cerca de dez pessoas, sobe correndo a Rua Consolação na direção da Av. Paulista.

Quem?  Certamente não eram pessoas do bem.  Provocadores, mas com que intenção?

É inegável que o Brasil vive um período relativamente longo de estabilidade institucional, democracia política, crescimento econômico e atenção social.  Claro que nada é perfeito.  Mas isso podia estar acontecendo quase 50 anos atrás, dando continuidade natural à energia da construção de Brasília, bossa nova e cinema novo, para alcançarmos desenvolvimento mais equilibrado e ponderado.

Quem não quis e não quer este tipo de desenvolvimento?   Se também houve provocadores, infiltrados e sabotadores nos anos 60, fui ludibriado como um inocente útil?

Será que agora, aproveitando o ensejo da Copa das Confederações que chama a atenção do mundo todo e a aglomeração de multidões nos estádios e pelas ruas, pretende-se criar um clima de intranquilidade e desconfiança, visando a desestabilização institucional, a mudança dos rumos da politica econômica autônoma e independente e a desatenção social?  Pode-se até querer melar a Copa do Mundo de 2014 e a própria democracia!

No budismo aprendi que há três tipos de verdade.  A verdade da sinceridade que pode ser um equívoco; a verdade relativa que depende dos pontos de vista pautados pelo interesse, formação e preconceito; a verdade absoluta que transcende nossos conceitos e valores, sendo válida para todas as religiões e até para os não religiosos.

Faço votos que os jovens não se deixem levar pelo ímpeto da sinceridade para direções erradas.  Que os vários pontos de vista que representam a verdade relativa possam ser debatidos democraticamente.  Que a verdade absoluta unam todos os seres no amor, sabedoria e compaixão.

A calma é a base da sabedoria e a gentileza, o princípio da compaixão.  Podemos expressa-las amorosamente, indo aos estádios torcer de forma tranquila e confiante.  Vou assistir Brasil e Japão no Estádio Nacional Mané Garrincha de Brasília e torcer, equânime, para o bom futebol dos dois times.