Apresentação ao Buda (shoshanshiki) e Ordenação Budista (tokudoshiki)

postado por mongesato / 01 comentários

Cacá é a Catarina, filha da Andrea e Luís Claudio, frequentadores de longa data que se casaram no Templo e já fizeram a cerimonia de Shosanshiki do seu primeiro filho, João Pedro.

Muitos fazem equivaler Shosanshiki com o batismo cristão para facilitar a difusão do budismo no nosso contexto não budista.  Não sou contra essa difusão, muito pelo contrário, a fim de aliviar a dor, a aflição e a desesperança de muitos, considerando o cotidiano de sofrimento diversificado como o nosso.  Mas é importante preservarmos o sentido original das respectivas doutrinas.

Shosanshiki pode ser traduzido como Primeira Apresentação ao Buda, estímulo para que a criança mais tarde, em idade consciente, possa fazer a opção de seguir o caminho budista sem nenhum constrangimento religioso ou só para seguir as convenções sociais.

Na cerimonia de domingo à tarde, céu azul e brisa refrescante, a nave ficou lotada de familiares, parentes e amigos de todas as religiões.  Muitas crianças. 

Cantamos em reverência à Luz do Buda como a Confiança que é depositada em cada um de nós, esperança no futuro de toda Humanidade, a nossa aceitação e agradecimento dessa confiança para o bem de todos.  É a forma budista de comemorar a todo e qualquer momento a passagem na impermanência da vida, a continuidade dessa vida que passa pelos nossos filhos, netos e bisnetos.  Daí a presença de tantas crianças no Templo, que também comemora aniversários e outras datas significativas, além de realizar ou lembrar casamentos.

Outra passagem foi da Cris que deixou de ser leiga iniciada para ser ordenada monja do Shin-Budismo, com o Tokudoshiki.  Após 3 anos no Seminário do Bukyo Gakuin realizado em São Paulo e concluir os estudos doutrinários de dois anos promovidos pelo Center for Buddhist Studies, sediado em Berkeley, Califórnia, foi credenciada pelo Bispo Superior responsável pela América do Sul para candidatar-se a vinte dias de treinamento no International Center do Jôdo Shinshu em Kyoto e posterior internação de onze dias no Mosteiro de Nishiyama.

Na sua primeira fala como monja no oficio dominical, ela disse que tosou inteiramente a cabeça quando é permitida a tonsura parcial para as mulheres, por duas razões.  Primeiro, ela foi muito sincera em expor a razão prática, pois o sono era permitido só a partir das 23h após intensa jornada para estar pronta às 5 horas da madrugada para serviços gerais no mosteiro, como a limpeza dos banheiros, escadarias, corredores, pátios, salas de aula, etc, com o cabelo e a vestimenta arrumadíssimos e o quarto em que convivia com cinco pessoas em ordem impecável à espera de inspeção, o que os cachos enormes atrapalhavam.

Mas outra razão foi de consciência intima que marca a sua passagem para o estado de monja, o renascimento como pessoa, a conclusão do período anterior de postura perante a vida em que o longo e sedoso cabelo representava a vaidade dissimulada da feminilidade. Ela dizia que se sentia como uma criança, com certeza, uma criança consciente.

Nobre propósito, sem esquecer que todas as nossas intenções, mesmo as boas, estão sujeitas à contaminação do nosso ego conformado pelos apegos, sentimentalismos e preconceitos.  Se assim não fosse, Buda não teria dito que a Primeira Nobre Verdade é entender que o que chamamos de vida é o sofrimento e o que chamamos de sofrimento é a vida.  A partir da aceitação da vida tal como ela é – impermanente, interdependente e insubstancial – que podemos ir às causas do sofrimento – a Segunda Nobre Verdade – para a própria transformação e renascimento em estado de graça da verdadeira felicidade, o que constitui a Terceira Nobre Verdade.

Falta a Quarta Nobre Verdade do Caminho Óctuplo que comporta várias visões. No caminho dos leigos é a recitação do Nembutsu – Namo Amida Butsu ou NAMANDABU – o nome do Buda Amida, que é aceitar e agradecer o Voto de Confiança do Buda Amida em cada um de nós.

Aceitar e agradecer parece ser a coisa mais fácil do mundo.  Não o é, se é de coração sincero e verdadeiro, sem intenções contaminadas ou contaminantes e estar verdadeiramente comprometido a transferir o Voto do Buda a todos.

Cacá, assim como a Cris, minha companheira do cotidiano e de fé, vão ter um longo caminho pela frente.