A Páscoa passou. Continua a passagem

postado por mongesato / no comentários

 

Quase todos se lembram da nossa infância quando acreditávamos no coelho que nos trazia presentes, ovos de chocolate que ficavam escondidos e tínhamos que encontrá-los.  Mas crescemos sem saber muito bem porque o coelho e o ovo são símbolos da Páscoa e qual o significado disso.

No cristianismo aprendi o que é amor, não como amor-próprio, mas como amor ao próximo.  A biologia pode mostrar que, em se tratando de ser vivo, amor-próprio existe por si como instinto de sobrevivência e reprodução que no ser humano acaba se confundindo com apego, teimosia, vaidade, orgulho, enfim, atributos do ego individualista.

Depois de uma adolescência medíocre pautada pelo egoísmo de depressões e euforias, só foi em 1960, ao ingressar na ação católica universitária que passei a participar dos movimentos de defesa dos pobres e trabalhadores. Aprendi que existe outro tipo de amor que é o amor ao próximo, exemplificado por Jesus que morreu ao lado dos humildes explorados e perseguidos pelos poderosos.

Hoje noto que, mesmo deixando o cristianismo, continuei na luta social por causa deste batismo de amor ao próximo de forte conotação cristã.  Certamente foi isto que me fez arriscar a vida lutando contra a ditadura, colocar-me frente a um pelotão de fuzilamento no exilio chileno e, no retorno, ser preso e torturado no Brasil.  Em vez de prosseguir uma promissora carreira acadêmica e profissional que me propiciasse estabilidade pessoal e familiar, preferi dedicar-me à luta pelo retorno da democracia no país e consolidação da democracia popular.

Mesmo depois de tornar-me budista,  esse sentido de amor ao próximo que não me deixa em paz diante do mau caminho seguido pelo desenvolvimento capitalista, cristalizado e representado pela tragédia de Fukushima, vazamento nuclear e propagação do clima de intranquilidade e desconfiança por todo o mundo.

Para o cristianismo, o que vale não é só o exemplo de vida de Jesus que morreu pelos pobres e humildes, mas a sua ressureição que tem significado teológico essencial.  Na verdade, é a passagem de Jesus da morte física sofrida para a vida eterna venturosa de Cristo.

A palavra páscoa significa exatamente passagem, passach em hebraico, pascha em latim, pasko em esperanto.  Para os judeus é a passagem da escravidão para a liberdade, a travessia do Mar Vermelho liderados por Moisés.  Outros povos festejam a passagem de um inverno rigoroso e infértil para a alegre e produtiva primavera.  Quase todos nós festejamos a passagem da idade de criança para a adolescência, da adolescência para a idade adulta, da formatura profissional, da união matrimonial, do nascimento dos filhos, etc.  Na verdade, estamos festejando cada momento da nossa passagem pela impermanência da vida.

Foi no budismo que recuperei o verdadeiro sentido de festejo da passagem da morte para a vida.  A cada momento estamos morrendo, ou melhor, nossas células estão morrendo. Mas também, a cada momento estamos renascendo, nossas células estão se renovando, o nosso cabelo ou barba crescem.  A cada momento estamos morrendo como células da humanidade mas também estamos renovando essa mesma humanidade.

As figuras tão prosaicas do coelho e do ovo simbolizam a páscoa como essa eterna reprodução e continuidade, vida e morte juntas.