O que vi em Fukushima – parte 3**

postado por Fabi / 01 comentários

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(Parte 3 de 3**)
Na história do Japão os terremotos e tsunamis são recorrentes, como mostram relatos e ilustrações de artistas como Hokusai.  Havia menos danos porque se respeitava a natureza e se evitava construir em áreas baixas ou deslizáveis.  O interesse meramente mercantil-econômico desobedeceu essa lei natural.  Essa desobediência é lamentável como o choro do homem bem vestido. Só não se esperava pelo espraiamento da radiação, que vazou de um típico gerador, resultado da ignorância humana que durará gerações ou para sempre.  Duvido que o Primeiro Ministro tenha demonstrado algum arrependimento ou reflexão mais profunda.

Dali, Sakamoto quis me levar para a fazenda onde fotografou as vacas que ficaram abandonadas, morreram, ou se tornaram selvagens: comiam de tudo que encontravam, até os pares mortos.  Seus donos foram impedidos de retornar para alimentá-las alguns dias após o reconhecimento oficial do vazamento nuclear.

ImagemMongeSatocommedidorderadioatividadeO medidor Geiger saltou para mais de 2,000.  Passamos por uma barreira derrubada, que marcava os 30 quilômetros ao redor da usina.  O medidor foi subindo e, de repente, apareceu outra barreira, esta, em pé.  Como fazemos?  Encontramos um atalho à direita e seguimos.

Era o caminho para a fazenda de gado. Um lugar belíssimo, com muitas vacas pastando, magras e desgastadas.  Paramos em frente a uma torre coberta de folhas de Flandres em que havia a indicação da distância da usina nuclear – 14 km – e dizeres de resistência.

Daí, seguimos a pé para a sede da fazenda, acompanhado pelo triste mugido das vacas magras.  O dono que manteve as vacas alimentadas, desobedecendo a ordem de interdição desde o vazamento nuclear, estava fora, participando de um evento antinuclear na cidade de Fukushima a uma hora e meia do local. Quem nos atendeu foi um jovem voluntário vindo de Tóquio.

Explicou que, após forte reclamação sustentada pela mobilização social, hoje recebem do governo um pequeno subsídio para manter as vacas que já não tinham nenhum valor comercial. Ninguém mais tinha a coragem de ordenhá-las nem o desejo de vender seu leite no mercado.  Mas elas estavam morrendo. Perguntei o porquê.  Ele disse: “Não sei. Talvez de tristeza, pois o efeito da radiação, cientificamente, não é morte instantânea mas lenta“, e me levou onde os cadáveres estavam se amontoando.  Ele disse mais: “O governo quer que cedamos as vacas sobreviventes.  Não queremos, pois não existe no acordo nenhuma cláusula clara de que elas servirão para pesquisa que possa beneficiar a humanidade.  Nas mãos do governo, elas devem ser simplesmente sacrificadas.  Aí preferimos que elas morram aqui onde a maioria nasceu e foi útil”.

Eu me calei, agradeci a gentileza de nos receber e tomamos o caminho de volta para a cidade de Fukushima.

Eram cinco horas da tarde e passando de volta pela cidade de Minamisoma, vejo crianças uniformizadas que descem de um ônibus escolar.  Sakamoto explica que a maioria dos pais que não retornaram à cidade alega a potencial periculosidade da radiação nuclear sobre o organismo infantil dos filhos.  Mesmo os pais que tiveram que retornar por motivos familiares, profissionais ou econômicos, mandam seus filhos para escolas longínquas para lá passar o dia todo, a fim de amenizar essa preocupação.  De fato, não vi crianças caminhando ou brincando nas ruas da cidade.

De todo modo, vamos herdar às gerações posteriores resíduos e lixos nucleares que comprovadamente levam milhares de anos para cessar os efeitos letais?  Isso não é compaixão!  Que direito temos nós de fazer isso, além de não preservarmos a natureza ou desenvolver todo o seu potencial em nome da contabilidade capitalista de curto prazo?  Isso não é sabedoria!

Já era escuro quando chegamos à cidade de Fukushima.  Para andarmos, tínhamos que tomar cuidado para não escorregar e acho que não era só por causa da camada de gelo no chão mas algum desequilíbrio muito grande no meu interior.

Fiquei surpreso com hotéis lotados, não foi fácil encontrar vaga para dormir uma noite.  Perguntei de novo o porquê de toda essa movimentação.  “Ah, a cidade está cheia de empresários, agentes, trabalhadores e operadores vindos de todo o Japão, por causa da contratação governamental dos serviços de desinfetação da radiação incrustada nas calçadas, nos pátios das escolas, nos prédios, nos telhados, nos gramados dos jardins, na terra. Além disso, as casas pré-fabricadas em que as pessoas desalojadas hoje habitam pedem reforma, ampliação ou mesmo substituição”.

Fiquei abismado com este incrível capitalismo, sempre se reinventando não para o verdadeiro bem estar da Humanidade, para a preservação do meio ambiente ou para a melhoria das relações humanas, mas para a reprodução dele próprio, o capital, que hoje nem material é, mas é fictício!

O Japão era considerado um dos países mais bem sucedidos no século XX, tendo se recuperado do fiasco modernizante da Primeira Grande Guerra e do fracasso imperialista na Segunda Grande Guerra.  Recuperou-se da destruição material e de danos na infraestrutura na passagem dos anos 50 para 60, fez avançar a tecnologia com pesquisa aplicada e o modo de produção baseado no trabalho coletivo para galgar o posto privilegiado no topo dos países do primeiro mundo.  Muito conforto aparente e acessibilidade a todo tipo de bens, pretensa liberdade individual e implantação da democracia formal, embora se preservasse o regime do imperador respeitado como deus vivo.

Mas algo foi se desequilibrando.

O que acontece com o Japão hoje não se restringe à intranquilidade geral e desconfiança generalizada que advém do vazamento da radiação nuclear.  É uma cristalização antecipada do que pode acontecer com o mundo todo na continuidade do seu modelo social, econômico e tecnológico, não só em função da radiação nuclear que não tem forma e que pode se espraiar pelo planeta,  mas também pela necessidade da revisão de valores, especialmente na retomada do equilíbrio entre o material e o não material no mundo das ilusões.

É o que pude testemunhar e sentir no segundo aniversário da tragédia de Fukushima.

Na manhã seguinte, às seis e meia, tomei o trem-bala para Kyoto. Fui assistir a ordenação da Cris como monja.  Da janela, ainda nas terras de Fukushima, vi a paisagem bela de montanhas cobertas de neve no topo, iluminada por raios dourados de luz.  Desejei que a neve derretida por essa luz não seja contaminada, mas pura. Uma luz para saciar a verdadeira necessidade de todos os seres.

Mais adiante, depois de Tóquio, vi o famoso Monte Fuji – glorioso, grandioso, resplandecente na luz dourada – e tive o mesmo sentimento, não apenas como espectador, mas certo de que a luz que sacia a verdadeira necessidade de todos os seres depende da nossa vontade e da nossa ação.

**Em sua última viagem ao Japão, o Monge Sato divide aqui suas impressões sobre a região de Fukushima, Japão, a qual foi a mais atingida pelos acidentes naturais e radioativos ocorridos em 2011. Seu relato será publicado aqui em três partes. Leia, comente e divida com seus amigos!