O que vi em Fukushima – parte 2**

postado por Fabi / no comentários

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(Parte 2 de 3**)

Eu me calo mas medito sobre o que ouvi há seis meses da Takako, que também esteve na Tenda Antinuclear no Rio+20, e que está atualmente Hokkaido, distante de Fukushima.

Ela disse: “Eu e o meu marido não queremos retornar a Fukushima pensando especialmente nos nossos dois filhos que – dizem – como crianças em formação orgânica são mais sensíveis e afetos ao acúmulo da radiação nuclear. Apesar do calor humano dos que nos ofereceram refúgio, não é fácil refazer toda vida profissional e social com essa mudança inesperada e indesejada. Além disso, nossos pais não abandonaram a área e reclamam a nossa volta, a proximidade dos netos. A própria comunidade afetada está dividida, muitos nos criticando e nos acusando de termos fugido da responsabilidade e solidariedade coletiva da reconstrução local. Sinto a minha família destruída e a comunidade de velhos amigos desfeita.  Como serão nossos filhos , que já estão traumatizados e agora se sentem pressionados?

mMongeSatoemplantaçãoMuitas plantações de arroz sem arroz, muitas casas sem gente no caminho.  Chegamos à cidade de Minamisoma onde o ímpeto do tsunami e suas ondas gigantescas chegou a algumas centenas de metros do centro, destruiu centenas de casas e carregou muitas vidas.

A cidade era limpa, moderna mas senti no ambiente certo ar de conformismo, senão de niilismo.  Exatamente às 14h26, hora em que há 2 anos atrás o tsunami subiu terra acima, começaria a cerimônia religiosa em homenagem aos falecidos.  Entrei no recinto preparado com certo formalismo e luxo.

Só aí me dei conta que Minamisoma era um centro urbano provinciano pouco desenvolvido que se beneficiou de verbas oficiais e da corporação energética japonesa por ter permitido a instalação de uma usina nuclear nas proximidades. Todo mundo sabia do risco calculado, por menor que fosse, que fazia parte da política energética e de desenvolvimento econômico e regional do Japão a partir do final dos anos 50.  Ouvi o discurso das autoridades locais que falava no desejo de retorno de todos os refugiados locais e reconstituição do espírito comunitário que antes existia, em recuperação econômica e reconstrução de uma cidade segura e tranquila, que não mais dependesse de riscos nucleares mas da consciência e esforço dos próprios cidadãos. Esse novo mandatário do Japão anunciara algumas semanas antes com toda pompa que retomaria oficialmente a operação de todas as usinas nucleares do país com medidas de segurança cabíveis.  Cabíveis?

Nós nos dirigimos à praia e avistei uma imensa clareira a perder de vista até o oceano azul.  É o resquício do que aconteceu há dois anos, a tal probabilidade mínima que de fato aconteceu progressivamente e em pouco tempo: primeiro – o terremoto em grau bastante elevado; segundo – o tsunami que arrastou tudo no mar de lama; terceiro – a explosão na usina nuclear.  Neste dia especial, algumas famílias com pessoas em pé ou de cócoras frente a coroas de flores.  Passei junto de um homem adulto bem vestido ao lado de um automóvel de luxo. Ele chorava.  Se as lágrimas eram pelos seus mortos ou pelos bens irrecuperáveis, não importa. Ele não podia mais reconstruir no local.  Mais à frente, parei por alguns minutos para dedicar uma pequena prece em silêncio.   Adiante, como se fossem frágeis barreiras contra novos tsunamis, montes de destroços de madeira, cimento, ferro e alumínio, ossadas enferrujadas de automóveis.

**Em sua atual viagem ao Japão, o Monge Sato divide aqui suas impressões sobre a região de Fukushima, Japão, a qual foi a mais atingida pelos acidentes naturais e radioativos ocorridos em 2011. Seu relato será publicado aqui em três partes. Leia, comente e divida com seus amigos!