O que vi em Fukushima no dia 11 de março de 2013**

postado por Fabi / no comentários

(Parte 1 de 3)*
São quase 11 horas da manhã, está frio e estou chegando à cidade de Fukushima.  O termômetro da estação está mostrando três graus.  Vamos nos dirigir à cidade de Minamisoma que fica dentro da zona interditada do raio de 30 quilômetros da usina nuclear em que ocorreu a explosão que provocou o vazamento da radiação no dia 12 de março de 2011 às 11 horas 04 minutos.  O tsunami foi no dia anterior, dia 11, às 14 horas e 26 minutos.

O companheiro que me esperava e que agora dirige o jipe é o fotógrafo Sakamoto que esteve no Brasil por ocasião do Rio+20.  Ele sempre anda com o medidor Geiger de radiação, como faz a maioria dos habitantes de Fukushima. Eles acordam, consultam a temperatura, sentem a umidade do ar e medem o grau de radiação do dia.  Se a radiação estiver alta evitam sair de casa, especialmente as crianças, que nem vão à escola.

Será que daqui a pouco todos nós vamos ter que tomar esse tipo de cuidado?

Na medida em que saímos de Fukushima e nos aproximamos da zona interditada –  hoje parcialmente liberada por pressão política popular e econômica local – o medidor vai subindo de 0,436 para 0,768. Mas antes de chegar ao destino, na rodovia, o marcador dá um salto para 1,225.  Eu não entendo dessa medida de radioatividade que é chamada de “mySV” que os japoneses repetem automaticamente: “minisiberto”.  Parece coisa de cinema de horror e, assustado, pergunto o porquê desse salto.

A explicação é que a zona que estamos atravessando é por onde passou uma nuvem que absorveu radioatividade justamente quando houve explosão na usina distante alguns quilômetros, deixando caí-la com a chuva nestas redondezas.  Dois fatos me  impressionaram: primeiro, isso ocorreu a dois anos mas os resíduos radioativos que caíram com a chuva se mantém no solo, na terra, asfalto, grama e árvores; segundo: a cortina de radioatividade que estou atravessando, cujo grau aquilato no visor do medidor que está na minha mão, é superior ao de Chernobyl e muitas vezes mais alto que a provocada pela bomba jogada sobre Hiroshima e Nagasaki, que causou danos imediatos por causa da concentração da explosão nuclear no tempo e no espaço.  É horripilante, parece um pesadelo!

A rede da Articulação Antinuclear Brasileira e Movimento Antinuclear divulgou um estudo importantíssimo da Organização Mundial da Saúde, que fala das sequelas do acidente nuclear de Fukushima.  A única certeza é que a radiação nuclear está relacionada com a probabilidade de provocar câncer, não se sabe bem em quanto tempo, com qual nível de intensidade e em que tipo de organismo.  Para ficarmos intranquilos e desconfiados, basta a suspeita de que está havendo vazamento nuclear em qualquer uma das inúmeras e incertas usinas espelhadas pelo mundo, basta a suspeita de que esse vazamento podem provocar câncer!  Mais intranquilo e desconfiado ainda, se todas as usinas nucleares se tornem objeto de ataques terroristas, sem falar em acidentes naturais e erros humanos!

Mas não é suspeita.  Estamos andando há mais de uma hora e meia e começo a ver resquícios de civilização: plantações e casas.  Só que são plantações abandonadas e casas se desfazendo.  É a zona que fora interditada por estar no raio de 30 km da usina em que houve a explosão.

Mas a interdição não foi levantada?”, eu indago.  “Sim”, responde Sakamoto.  “Só que mais da metade do pessoal que foi obrigado a deixar a área, não retornou mesmo passados dois anos”.  E continua: “Não sei se retornarão”.

**Em sua atual viagem ao Japão, o Monge Sato divide aqui suas impressões sobre a região de Fukushima, Japão, a qual foi a mais atingida pelos acidentes naturais e radioativos ocorridos em 2011. Seu relato será publicado aqui em três partes. Leia, comente e divida com seus amigos!