Shinran Shonin vive entre nós

postado por mongesato / no comentários

 

  Shinran vive entre nós, ontem e hoje, daí a homenagem que continuamos prestando a ele, mesmo no Brasil.  Humildemente, reconheço que ainda temos muito que fazer para difundir seus ensinamentos, com a mesma honestidade, coragem e simplicidade que ele teve.

 

Hoonko é a cerimonia mais importante do Shin Budismo da Terra Pura, Jôdo Shinshu (em japonês), uma homenagem ao seu fundador Shinran Shonin, que viveu de 1173 a 1263.  Precedendo a data de falecimento, 16 de janeiro, antigamente se realizavam rituais que duravam vários dias, os monges a se revezar em palestras que lembravam a vida e o ensinamentos do Mestre, com grande presença de adeptos.

Parece que hoje, mesmo no Japão, são menos dias e com menos adeptos que antigamente.  Por que será?  Por que Shinran Shonin está anacrônico ou é por culpa da modernidade?

A formulação shin-budista do Shinran Shonin voltada para a Salvação como Aceitação da Confiança do Buda Amida (他力信心), Salvação de Todos, mesmo os que Não Conseguem Fazer o Bem (悪人正機) e Salvação na Vida como Terra Pura (淨土往生) não é anacrônica, mas muito atual.  O Mestre a apresentou no século XIII quando o Japão estava passando por uma grave crise social e política, transição da era aristocrática Heian para o período Kamakura em que o clima de intranquilidade, angustia e desesperança pairou sobre todos.

Hoje, o mundo todo vive uma crise parecida.  O sonho de uma sociedade igualitária virou pesadelo e acabou ruindo, o progresso esperado pelo desenvolvimento capitalista se transformou em comodismo material e tédio, avanço social e prática de liberdade apregoado pela democracia acabou virando pressão ferrenha sobre o individuo, gerando depressão e suicídio.

Os ensinamentos do Shinran trouxeram muita tranquilidade (安心) e confiança (信心) aos que sofriam de falta de alternativas e perspectiva de vida.  Acredito que hoje, não só o Japão, mas todo o mundo está requerendo seu amplo conhecimento e sensível compreensão pois vivemos uma séria crise civilizatória.

Como compreender os ensinamentos do Shinran Shonin?  Refletindo e rememorando sempre a vida do Mestre.  Esse é o propósito do HOONKO.

 

Nem monge, nem leigo

Shinran Shonin, órfão de pai e mãe, é entregue ao mosteiro tradicional do Monte Hiei aos nove anos, onde passa vinte anos.  Dedica-se intensamente aos estudos com mestres famosos, muita leitura de textos originais e árduos exercícios de ascese como dedicado aprendiz e praticante budista.  Entretanto, não conseguia alcançar a iluminação.

Seus colegas caçoavam e até aconselhavam simular que recebera a Graça do Buda para progredir na carreira de monge.

Ele recusava, dizendo que não colaborava com falsidades.  Isto mostra a sua honestidade com os outros e estar íntegro consigo mesmo.

Angustiado, desce o Monte Hiei para o encontro com o Mestre Honen em Kyoto que pregava simplesmente a recitação do Nome do Buda Amida de coração sincero (至心)para ser aceito na Terra Pura, para alivio e tranquilidade de qualquer um que sofresse, que fosse pobre ou rico, povo ou elite, camponês, comerciante ou samurai.

Shinran Shonin, então com trinta anos, não era nenhum principiante, mas culto e experimentado na árdua prática budista.  O Mestre Honen, quarenta anos mais velho, também era egresso do Monte Hiei, muito respeitado pela sua erudição e bondade.  Os dois estavam decididos a aliviar o sofrimento do povo sem nenhuma discriminação, recebendo todos que os procuravam para recitar o Nembutsu.

Isto irritou os conservadores que os denunciaram como hereges, expurgaram Honen e todos seus discípulos da ordem budista e os desterraram para longe, separadamente.  Isso ocorreu em 1207.

Nesta ocasião, Shinran toma uma atitude corajosa ao se declarar “nem monge, nem leigo” (非僧非俗) e se intitula “um tolo careca” (愚禿).

Na verdade, foi uma virada decisiva.  “Nem monge, nem leigo” (非僧非俗) é a essência do Budismo Mahayana como indicação de que o budismo é para todos, um alerta de que os monges não devem gozar de privilégios em relação aos leigos, pois ambos são seres humanos cheios de venenos da mente – desejo, raiva e ignorância – mas iluminados, igualmente, pela Luz do Buda.  Objetivamente, contrário à farsa corrente, Shinran casou-se oficialmente com Eshinni, estabelecendo o não celibato aberto e não culposo no budismo japonês.

“O tolo careca” (愚禿) também tem significado.  Na capa do calendário deste ano, Daiei Kaneko (1881-1976), um grande budista japonês afirma que “O nembutsu consiste em descobrir a si mesmo” (念仏とは、自己を発見することである).  Shinran descobriu-se a si mesmo como um tolo!

Quem tem a coragem e a consciência de fazer isso?  Ninguém, se não for iluminado pela Luz do Buda.  “Ser tolo” é ação que leva à “descoberta de si mesmo”, tema que voltarei a abordar aqui.

Em alegria pela Luz que permitiu essa descoberta、Shinran viveu muitos anos entre os leigos camponeses e pescadores para descobrir a própria vida, antes de retornar a Kyoto.  Concluiu a sua obra-prima “Ensinamento, Prática, Fé e Realização” (教行信証)em 1224, uma das maiores obras do Budismo Mahayana que ele teve a preocupação de transformar em hinos com a intenção de facilitar o entendimento e ampliar o alcance popular nos últimos anos da sua vida.