Crônicas Budistas

postado por mongesato / 2 comentários

Uma longa caminhada

 


Há algum tempo faço longas caminhadas. Comecei minhas caminhadas na Cordilheira dos Andes quando estive no Chile do Allende, ao pretender estar longe do regime militar que vigorava no Brasil.

No retorno ao Brasil democrático, caminhei pela Chapada dos Veadeiros, Chapada Diamantina, Serra dos Guimarães, Monte Roraima. Fui a Machu Pichu, no Peru, por três vezes. No Japão, entre outras montanhas menos conhecidas, cheguei ao topo do Monte Fuji e repeti a subida do Hiei – o Monte Sagrado de Kyoto – três vezes, tomando o velho caminho do Mestre Shinran que lá viveu por mais de vinte anos, no nascedouro do budismo zen e amidista. Andei no alto de outra montanha sagrada – Koyasan – o berço do budismo esotérico japonês.

Os orientais dizem que a gente começa a envelhecer pelas pernas e não pelo coração ou pela mente. Antes de me tornar budista, tomava o dito no sentido meramente fisiológico. Pensava que movimentar o corpo é bom, pois isso evita os ataques cardíacos prematuros e estimula os nervos do cérebro para prevenir doenças mentais degenerativas como o mal de Alzheimer. Na visão oriental não existe separação entre corpo e mente, a mente faz parte do corpo.

Eu mesmo caminhava para não me entregar ao ócio ou sedentarismo e para meditar. Queria manter o corpo ativo e a mente atenta. É por isso que quando escuto reclamações de dores físicas dos que estão começando a meditar apenas digo “Que bom, estamos tendo a oportunidade de experimentar a mente no corpo”.

Entretanto, ao aprofundar o estudo e a prática budistas, comecei a entender que o sentido da caminhada não é linearmente fisiológico e nem metafórico. Ele é a própria experiência direta da vida.

Na caminhada pelas montanhas, demoramos muito para alcançar o topo ou uma plataforma onde sopra vento fresco e a visão é esplêndida, descortinada até o horizonte. Grande prazer após muitas dores pelas subidas e descidas de pedras soltas sob forte sol ou escorregadias como sabão na chuva continua ou intermitente. Mas lá não é o nirvana, pois há todo o caminho de volta. Muitos não retornam do topo das grandes montanhas e morrem por esgotamento orgânico ou por desprezar as dificuldades da volta e mesmo nas caminhadas fáceis, comumente acontecem acidentes no retorno. De todo modo, o importante é que a vida continua após a caminhada montanhosa.

Nem é preciso viagens extraordinárias para viver isso. A montanha está bem aqui: nas ruas, na ida ao trabalho, nos nossos relacionamentos.  Não é um objetivo nem uma uma meta a se alcançar. É o sobe e desce contínuo do samsara.

Preparando-me para subir de novo o Monte Fuji. Aqui no Templo. Alguém aceita ser meu companheiro nessa caminhada?