Cartas da Índia (1)

postado por mongesato / 3 comentários

Incrível Índia

 

 


Depois de quase um mês mergulhado na cultura japonesa e no shin-budismo,  até sentindo a crise civilizatória – em japonês, perigo e oportunidade fazem parte do mesmo kanji – que passa pela tragédia de Fukushima onde estivemos, mas com o pensamento sempre voltado para o futuro luminoso do Buda e vocês da Sanga do Templo de Brasília, chegamos ao berço do budismo, a Índia.

Quando a Cris foi buscar o visto na Embaixada da Índia recebeu um folheto oficial que apresentava o país como incredible, increible, inacreditável.  Ela achou que fosse brincadeira e viajou apenas preocupada com o delicioso curry fortemente apimentado que afeta os intestinos.  Sentiu que era verdade logo em Delhi, onde desembarcamos vindo de Tokyo.

Meteu-se na confusão multicultural do aeroporto internacional pois perdemo-nos do guia, viu o caos do trânsito, assistiu a parafernália humana misturada com animais se movimentando sem parar.  Mas, de manhã acordou sem sentir dor de barriga.  Ouviu os mantras que emergiram do Templo Hare Krishna em frente ao hotel.  Viu uma senhora indiana de sari amarelo-dourado no terraço em frente à janela do quarto fazendo orações e oferecendo flores.

Em Delhi ficamos apenas um dia para visitar fortes, mesquitas e templos para constatar a forte influência muçulmana que ocorreu por longo tempo, antes da dominação inglesa que Gandhi combateu pela sua ação de resistência não violenta – ahinsa.

Ahinsa não é uma palavra de origem budista e faz parte da tradição e filosofia indianas desde os tempos remotos, tendo influenciado o próprio Buda que só(?!) surgiu no século VI antes de Cristo.  A meu ver, ahinsa ou não violência não significa propriamente inércia, mansidão e relaxamento, mas atenção, concentração e persistência.  Parece que todos tomaram aulas de meditação contemplativa no Templo.

Brincadeiras à parte, prova disso é no próprio trânsito em que caminhões, ônibus, tratores, automóveis, triciclos motorizados, riquixás pedalados e puxados, motocicletas e bicicletas se misturam no mesmo fluxo, encontram-se no cruzamento ou no balão e não titubeiam ou param, escoando naturalmente o trafego.  Por incrível que pareça, anda-se rápido e em segurança na Índia, neste aspecto sentimo-nos tranquilos e confiantes.

É verdade que a filosofia de ahinsa e a prática da democracia parlamentarista depois da retirada dos ingleses não extinguiram a pobreza gritante.  Em um dia só pudemos observar o contraste entre a grandiosidade e a beleza dos fortes, mesquitas e templos com a pobreza e a aparente sujeira que os circundam.  Eu não me assustei muito não só porque conhecia a Índia, como já tinha trabalhado em favelas no Brasil, em vilas operárias no Chile e vivido na Bahia.

A Cris estranhou no começo, especialmente por ter chegado do Japão em que tudo é aparentemente limpo, todos andam bem vestidos como classe média universal, o trânsito é ordenado e parece tudo bem moderninho.  Mas, para minha surpresa, ajustou seu olhar, seu olfato, seu ouvido e sua apreciação rapidamente.  Será resultado de anos de prática budista?  Nem se assustou vendo homens nus em Jaipur, para onde viajamos de carro. Falarei sobre isso na outra carta.

Namandabu, Namandabu, Namandabu