Crônicas Budistas

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Kibishisa: o velho monge que chicoteava

  

Kibishisa expressa a dureza do sofrimento. Às vezes, pode parecer um banho de água fria. Vamos compreender kibishisa.

O meu encontro com o budismo e no budismo foi graças ao velho monge Nakabayashi,  cheio de ternura e gentileza, que me fez compreender o kibishisa da minha mãe, propiciando que eu fizesse as pazes com ela.  Mas não vou contar a minha história agora, só gostaria que lessem o seguinte conto para refletirmos.

Havia um belo templo budista que ficava na subida da montanha.  Com a viagem do abade, os jovens monges ficaram como responsáveis.

Um dia apareceu um animal, o veadinho, que desceu as montanhas e adentrou os jardins do templo.  Os monges acharam graça e deram comida.  Noutro dia, o animalzinho reapareceu com vários outros que foram igualmente alimentados com carinho.  Em poucas semanas, o templo ficou cheio deles.  Muito felizes, os veadinhos só queriam mais comida e atenção dos jovens monges.

O abade retorna.  Passa a enxotar os animais, chicoteando o chão.  Indignados e decepcionados, os jovens monges interpelam o velho monge, conhecido como muito bondoso e sábio, censurando-o pela falta de compaixão e amor pelos bichinhos.

Por que o velho monge fez isso?  O que será que ele respondeu?

Vamos ver se vocês adivinham.

O velho monge respondeu: “Vocês pensam que estão fazendo bem aos bichinhos, querem que eles não sofram as agruras da vida na natureza?  Isso é um grande engano, eles estão ficando mal-acostumados, ignorantes e preguiçosos.  Logo, logo, os veadinhos vão descer a montanha na direção da aldeia, esperando o mesmo tratamento de facilidades.  Serão mortos e comidos”.

Lembremos que Buda Sakyamuni falou da dor (dukkha) como a Primeira Nobre Verdade sobre a vida.  Ele disse: “O nascimento é doloroso, a velhice é dolorosa, a morte é dolorosa, as tristezas, os lamentos, a depressão e o desespero são dolorosos, estar com o que não se deseja é doloroso, não estar com o que se deseja é doloroso”.

Mas não se assustem.  Achar que o budismo prega o pessimismo, o conformismo e o escapismo é equívoco corriqueiro de pessoas que não contemplam o conjunto integrado das Quatro Nobres Verdades.

O sábio conselho do Buda foi de que podemos meditar sobre as verdades da vida e do sofrimento, compreender verdadeiramente porque o que denominamos de sofrimento é a própria vida e o que denominamos de vida é o próprio sofrimento, ao completarmos com o significado e o sentido das outras Três Verdades: a origem da dor (samudaya), a cessação da dor (nirodha) e o caminho da libertação do sofrimento (marga), o Caminho óctuplo.

Isso quer dizer que, se não enxergamos o nosso sofrimento, não temos como encontrar significado e sentido na nossa vida.  Corremos o risco de continuar na roda viva dos sofrimentos cíclicos de dor e prazer, sem entender nada.

Kibishisa significa rigor e severidade.  Normalmente não gostamos disso que as chicotadas no chão do velho monge representam.  Reagimos ao rigor e à severidade que a vida nos impõe de forma angustiada, indignada ou raivosa, aprofundando a nossa ignorância, indolência ou arrogância, sem percebermos que é o próprio principio cármico da causalidade – causas e condições – que move o mundo.

Kibishisa nos diz que, à Luz do Buda, podemos enxergar o sofrimento que se transforma em energia pura para a vida.  E o nembutsu é a aceitação dessa Verdade.