Cartas do Japão (4)

postado por mongesato / no comentários

Interação Cultural

  

Está sendo um verdadeiro aprendizado cultural e emocional viajar com a Cris pelo Japão, uma cearense alta e loira de cabelos encaracolados que por si só chama a atenção dos japoneses e que esquece câmera cara na estação, discute com o maitre sobre a qualidade do sakê, se apavora na boca do vulcão, briga comigo no trem por causa da minha dieta.

Vocês sabem que vim ao Japão para participar de simpósios inter-religiosos sobre a paz mundial e cuidados com a energia nuclear, chegar até Fukushima para ver e sentir in loco os estragos da ambição humana mal conduzida, conversar com os refugiados da radiação e fazer palestras nos templos budistas aos curiosos em ouvir um budista brasileiro descendente de japoneses. Afinal, vivemos a globalização e estamos encarando uma grave crise civilizatória.

A primeira vez foi em 1966 e devo ter vindo mais de 20 vezes por motivos pessoais, acadêmicos, profissionais e, ultimamente, por interesse budista universal. A Cris veio pela terceira vez para prosseguir no longo processo de aculturação e encaminhar o penoso credenciamento formal como monja na sede central da Ordem em Kyoto.

Acho que o Japão absorve tudo do contexto cultural mundial para dar-lhe uma forma peculiar sintética e bela, até na religião. Assim mantém a sua identidade, não engole nada de forma bruta. Talvez parecida com a postura antropofágica brasileira apontada por Oswald de Andrade e mais recentemente por Darcy Ribeiro.

Não, não quero complicar. Só queria saber que cultura nacional e social estamos formando no Brasil antropofágico. Ou não existe mais cultura nacional e sim globalizada, nada de social mas tudo individualizada, conforme o modo de produção, de consumo e de ser capitalista?

Eis a crise civilizatória que atinge até o Japão. Mas ela é a grande oportunidade para revermos o modelo desenvolvimentista vigente.

Sem fazer trocadilhos, na convivência com a Cris estou sentindo o que é interação cultural compartilhada de sabedoria e compaixão que transcende qualquer modelo racional e material, especialmente quando não encontro minhas pequenas coisas como caneta, óculos, meia, lenço, ou porque foram guardadas no fundo da mala ou porque ficaram sob as toalhas usadas.

Queria transmitir isso a vocês do que discorrer sobre Deus e Buda, o primeiro com sua força criadora e também destrutiva – como senti na boca do vulcão que formou a lindíssima Lagoa Toya – e o segundo como a Luz que conduz os homens ao convívio com a natureza e com os próximos.

O budismo japonês transforma a tensão sempre presente numa ilha cheia de vulcões, terremotos, tsunamis e furacões em atenção ao outro, em servir bem para ser servido plenamente em cada momento, pois este que pode ser único como o último.

E o Brasil que não tem vulcões, terremotos, tsunamis e furacões?

NAMANDABU NAMANDABU NAMANDABU