Cartas do Japão (3)

postado por mongesato / no comentários

A vida continua como grande aprendizagem

 

Abandono em Fukushima. As plantações de arroz substituídas por extensas áreas de mato.

Há duas semanas deixamos Brasil e sentimos saudade, da carinha e da voz de vocês.  A viagem continua, temos muito por aprender, nem chegamos a Kyoto, tenho outras palestras e ainda vou para a  Índia.  Estamos aprendendo juntos, vocês ( a sanga) também vivendo uma nova fase que é responsabilizar-se efetivamente pelo Templo de Brasília.

Depois do encontro em Hokkaido, participei do mesmo Simpósio a nível nacional em Tóquio, juntamente com palestrantes dos Estados Unidos, França, Palestina e Israel, além dos próprios japoneses, cristãos, budistas e não religiosos.

Ficou claro que a tolerância religiosa não é um privilégio nosso, o brasileiro cordial, mas a consciência de que podemos enfrentar o mesmo problema que ameaça a todos – o perigo nuclear e as distorções provocadas pelo mercantilismo capitalista – ou buscar o mesmo mundo mais amoroso, mais justo e mais estável com visões transcendentais diferentes.  Isto significa que, ao nos libertarmos do imediatismo/fatalismo materialista e defendermos a não violência em todos os níveis, nos responsabilizamos coletivamente por tudo que ocorre, a possibilidade da reconciliação/ transformação e o diálogo de culturas diferentes, podemos manter a esperança de um mundo melhor.

Isto vale na sociedade maior como no trabalho, em família, na intimidade pessoal.  É a vibração de sentimentos pessoais e interpessoais na convivência com costumes humanos diferentes e no compartilhamento da natureza.  Somos uma usina energética fabulosa cuja força reside nesta vibração.

O Simpósio incluía visita a Fukushima e conversação com os locais que vivem a dramática situação pós-explosão da usina nuclear.  Em abril visitamos a zona invadida pelo tsunami e sentimos a força incrível da natureza tanto espontaneamente criativa como destrutiva.  Desta vez, próximo às usinas, vimos os estragos que nós, humanos, na nossa ignorância ou arrogância, podemos provocar a nós próprios.  Vimos cidades desertas abandonadas pelos habitantes que fugiram dos riscos da radiação que ainda paira no ar, na água, no chão e nas matas, ouvimos a revolta contra a desinformação oficial e irresponsabilidade empresarial e informes dramáticos sobre a crescente desagregação comunitária e até familiar. A ameaça nuclear é como um fantasma que não tem forma, cor ou cheiro, de efeito danoso comprovado, mas cuja aparição é inesperada.

Certamente, o traço cultural japonês ajuda a superar tais dificuldades.  Não falo do sentido da disciplina e coletivismo, mas de algo que se aproxima até de nós, brasileiros.  É a capacidade de conviver com a sucessão de tristezas e alegrias, feiuras e belezas, tensões e atenções.

Não é especulação filosófica ou sociológica.  Após visita a lugares sombrios, nos hospedavam em lugares belíssimos.  A tensão dos riscos da convivência com a natureza pontuada por terremotos e tsunamis era desanuviada pela sua beleza.  O compartilhamento com a natureza humana pautada pelo apego e ignorância, era compensado pela gentileza e atenção de servir.  Terminava-se a jornada com o ofurô e alegre confraternização, preparando-nos para a plenitude do dia seguinte.

Mesmo nessas alturas da vida foi um grande aprendizado.

NAMANDABU NAMANDABU NAMANDABU.