Cartas do Japão (1)

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Os fusos horários da vida

 15/10

15/10 – 3a feira
(Crônicas de viagem do Monge Sato a ser publicadas semanalmente, às terças e sextas-feiras, durante o mês de outubro (Japão) e novembro (Índia e Nepal)

Tenho problemas de fuso horário toda vez que viajo a latitudes diferentes e, assim, resolvi chegar ao Japão alguns dias antes de dar inicio à série de palestras.

De Narita, aeroporto intencional de Tóquio, fomos de trem à Kamakura, uma cidade histórica, berço da era dos samurais e shoguns que acompanhou a formação do Shin-Budismo da TerraPura.  Também aqui, no Templo de Kotokuin, encontra-se a segunda maior estátua de bronze do Japão, o Grande Buda (Daibutsu) de aproximadamente 13 metros.

Bem, com bagagem desacompanhada dispersa, o fuso horário no final de tarde nos deixou tão tontos que acabamos deixando a câmera Nikon na estação de trem. Uma jovem vendo a Cris quase chorando disse: ” Olha, não percebi que era de vocês e entreguei no escritório da estação”.

Talvez a gente nem estivesse acreditando na história da moça e estava dando a cara máquina fotográfica como perdida. O fato é que a câmera foi resgatada três dias depois totalmente intacta, várias pessoas envolvidas na operação, sem que ninguém aceitasse qualquer tipo de recompensa. Fuso cultural diferenciado?

Como se diz no budismo, tudo tem causas e condições. Vou falar de fuso natural.

Fomos à E-no-Shima, que é uma praia belíssima mais adiante de Kamakura. Em todo lugar vi avisos discretos, mas bem claros que nem traduzi a Cris para não ficar alarmada: “Se sentir terremoto e ver a aproximação do tsunami, corra para o morro tal”. Ou seja, o povo japonês vive em permanente atenção e concentração em função da vulnerabilidade natural e nem por isso deixa de curtir a vida e a beleza. Tomam mais cuidado, são pontuais, obedecem a regras de convivência e são colaborativos para o aproveitamento comum e pleno da vida. Todos por um, um por todos, na impermanência, na interdependência e na insubstancialidade da vida.

Quase todo japonês que chega ao Brasil pergunta: “Este país não tem terremoto? Vulcão? E tufão? Nada disso? Como pode?”

Podemos. Podemos aproveitar melhor essas vantagens naturais, formando o fuso cultural diferenciado que possa servir a toda humanidade, com pouco mais de sentido comunitário, de convivência fraterna e cadência ritmada.

Ah, cadência e ritmo nós temos, até cantamos bem o Shoshingue! Então, porque não!

Sinto falta da sanga recitando de forma bem ritmada:

Namandabu — Namandabu —  Namandabu