Crônicas Budistas

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Impermanência: transformação e renovação da vida

 

 A impermanência é um dos ensinamentos mais bonitos do Budismo. Por que digo que ele é bonito? Porque se manifesta como objeto de percepção no que olhamos, escutamos, tocamos, cheiramos, provamos, compreendemos. É um ensinamento direto, mas precisamos alimentá-lo todos os dias. Se pensarmos na impermanência apenas como algo fora de nós, ou que não tem nada a ver com a nossa vida, sofreremos quando as coisas mudarem.

Não temos dificuldade em perceber como tudo à nossa volta e nós mesmos estamos em permanente transformação. Toda semana, colocamos vasos de flores no altar do Buda. Um arranjo lindo e exuberante que nessa época de baixa umidade mal dura uma semana! Não devermos achar isso ruim. O aprendizado de olhar as flores murcharem nos fará progressivamente apreciar melhor sua beleza e ficar menos tristes quando elas se vão. Isso vai se constituir pouco a pouco numa maneira de enxergar a vida.

No Japão, no outono, a morte se expressa na beleza das folhas, que mudam de cor e assumem várias tonalidades até que não sobre nenhuma vida sobre os galhos. Também na época de seca em Brasília, somos presenteados com o belo espetáculo de floração dos ipês: primeiro, o rosa; depois, o amarelo; por fim, o branco. Todas aquelas flores em pouquíssimo tempo murcham e a bonita árvore dá lugar a um amontoado de galhos nus. As flores murchas no chão vão servir de nutrição para a terra e outros seres. Não existe fim. Existe transformação e renovação da vida.

Assim falado de forma simples parece fácil aceitar. Mas a humanidade viveu e vive muitos momentos de ignorância por acreditar na permanência. Durante muito tempo, achamos que a terra era o centro do universo e plana. A cada dia, um alimento que era fonte de nutrição torna-se prejudicial à saúde. No planalto central, são descobertas reminiscências do mar: o sertão já foi mar, o mar já foi sertão.

Precisamos nutrir a compreensão da impermanência também como algo que não está fora de nós. Uma imagem simples, que fala muito, é ficarmos à margem do rio, vendo a água passar.  Essa água passa, sobe pelo oceano e retorna à terra sob forma de chuva.  Há uma reciclagem dessa água que passa. Graças a isso podemos também transformar o sofrimento em alegria. A água passa e muda, porque nós mudamos e o que está à nossa volta também.

Mas não somos observadores dessa água que passa: somos a própria água renovada. Não nos imaginemos à margem da impermanência. Somos a impermanência, fazemos parte dela.  Nem sujeito nem objeto, nem eu nem outro, nem objetivo nem subjetivo.

Que possamos difundir esse ensinamento a todos no nosso caminho. Namo  Amida Butsu (em unidade com o Buda Amida e a vida)