Carta do Monge a um Brasil Livre de Usinas Nucleares

postado por Lotus / 7 comentários

Meu nome é Sato, sou monge budista desde 1998, mas muitos me conhecem de outros renascimentos – como do Chile em que hoje, dia 11 de setembro, lembramos a passagem do  Presidente Allende, em cujo governo tive o privilégio de trabalhar e lá estava naquele dia de 1973.

Estou agora no movimento antinuclear, porque reencontrei o Chico Whitaker nas primeiras horas deste ano batendo o Grande Sino do Templo Budista de Brasília onde sou monge responsável.  Eu o conheci já com a Stella quando ingressei na faculdade em 1960 e ele era dirigente – ainda é e sempre será – da Ação Católica.  Reencontrei no Chile em 1970, pois ele tinha sido enxotado pelo regime militar brasileiro antes de mim.  E, agora em 2012 – “milagrosamente” ou apenas “como resultado de causas e condições inexplicáveis” como se diz no budismo – o que deu novo direcionamento à minha passagem pela vida agora como monge.

Já estive em Fukushima duas vezes depois da tragédia.  É a terra natal da minha mãe, onde ainda vivem tios e primos.  Também soube que foi um tio meu – irmão da minha mãe – que iniciou as negociações para a instalação da usina nuclear quando foi governador no final dos anos 50.  Vi os estragos do tsunami, quase inacreditáveis, se não juntássemos com as imagens que vimos em tempo real pela televisão, a massa enorme de água lamacenta engolindo prédios, viadutos, navios e tudo mais.  E, como se isso não bastasse para a natureza nos lembrar como somos frágeis, senti os resquícios que deixou de intranquilidade e de angústia, expressos como o vazamento da radiação letal da usina nuclear.  Quem esteve na Tenda Antinuclear da Cúpula dos Povos do Rio+20 e assistiu os depoimentos dos japoneses que vieram especialmente, podem se lembrar disso.

Entendi que foi uma sinalização da crise que o mundo todo vive, da falácia do desenvolvimentismo, um conceito tão caro para nós, especialmente da minha geração.  Que felicidade o desenvolvimento científico, tecnológico, mercadológico e material pode nos trazer se vivemos em intranquilidade e angústia crescentes, além do aumento das desigualdades econômicas e sociais, amplamente comprovado por dados oficiais e por reportagens mundanas!  E o fundamentalismo anacrônico e selvagem, a violência urbana, o individualismo competitivo e da solidão perdida na parafernália da comunicação moderna?

Sim, a tragédia de Fukushima deixou uma outra lição humanitária.  Na profundeza da crise que vitimou instantaneamente 25 mil pessoas, o Japão tomou consciência do pesadelo que foi parcialmente redimido pelo trabalho voluntário e comunitário.  Milhares de pessoas – especialmente jovens, religiosos e ativistas de organizações não governamentais – correram a Fukushima e outras regiões afetadas pela catástrofe, lembrando que somos seres sociais, gregários, interdependentes e afetivamente muito sensíveis.  Somos basicamente amorosos e não racionais.

Podemos mostrar não só as mazelas que podem provocar,  em Goiânia, danos a pessoas simples e humildes como Odessom e sua família, no acidente conhecido por césio 137; a perversidade capitalista que deixou de elevar alguns metros os muros da usina nuclear de Fukushima por ganância econômica, a natureza semieterna e acumulação inexorável dos lixos atômicos que passam a pesar na nossa consciência mesmo nas profundezas do solo; a discussão técnica que se torna falaciosa e viciada se continuamos considerando a natureza apenas como recurso a ser usufruído de graça pelo ser humano, embora paguemos caro para o gáudio imediato dos poucos detentores do poder econômico e político.

Podemos sim mostrar as limitações do modelo desenvolvimentista que exige essa forma de geração e distribuição da energia.  Foi muito sintomático que a tragédia mais recente tivesse ocorrido no Japão.  Lá mais de 30 mil pessoas se suicidam anualmente.  A Organização Mundial da Saúde divulgou que o número de suicídios vem aumentando no mundo, hoje atingindo um milhão de pessoas para 6 milhões de tentativas.  O Brasil está ingressando na mesma seara desenvolvimentista, lembrando o Japão dos anos 60.

Logo depois do nosso encontro em São Paulo no dia 13, Estou viajando novamente ao Japão para participar de uma série de palestras e simpósios sobre a Paz e a Religião, incluindo a discussão sobre o movimento antinuclear.  Vou arriscar a insolência de lembrar aos japoneses que eles não podem fugir à responsabilidade de assumir o papel crítico do atual modelo de desenvolvimento mundial, não só por ser o único povo que sentiu os horrores da explosão nuclear provocada propositalmente pela ignorância humana em Hiroshima e Nagasaki e que, não obstante isso, foram obrigados a construir um grande número de usinas nucleares que podem vazar radiação letal a qualquer momento, vazando e emitindo intranquilidade e angústia.

Afinal, com a tragédia, eles também demonstraram a importância da espiritualidade manifestada como a generosidade do trabalho voluntário e comunitário, o ser humano como a usina energética mais importante.

E relatarei o que estamos fazendo no Brasil ou começando a fazer.

Espero que o Brasil possa vir a mostrar ao mundo que não precisamos da ocorrência de tragédias para nos mobilizarmos para a consciência da mudança.  Por que não, como exemplo, retomarmos a espiritualidade comunitária em torno de fontes energéticas alternativas menores – mesmo sendo hidroelétrica – que atendam essa comunidade que delas se responsabilizam comunitariamente?  Como a tribo que cuidava da fonte de água, do poço, do fogo e que sentavam e conversavam em torno dela.  Hoje pode ser em torno da moderna usina solar, eólica ou da correnteza do rio.

Será que estou sonhando?  Sim.  Mas o Governo Allende também foi e muita coisa que se sonhou naquela época foi e está sendo implementada – como a democracia participativa – embora sempre corra o risco da ameaça da estranha divindade que os povos primitivos chamavam de “o diabo”.  Mas esses diabos sempre nos provocavam reflexão e ação – a consciência da mudança – diabo esse que se apresenta hoje como alienação mercantil-materialista do capital.  A coisificação de tudo.