
Conhecer e ver

Nessa quarta-feira, fui dar meditação no HUB, Hospital Universitário de Brasília. O convite partiu do Professor José Augusto, que freqüentava as meditações no Templo. Agora aposentado, ele trabalha como voluntário no Hospital, na área de DII, doença inflamatória intestinal. Preocupado com o estado de depressão profunda dos pacientes, ele, que já tinha percebido os benefícios da meditação, me chamou para ajudá-lo nesse bonito trabalho de doação e generosidade.
Quando entrei na sala, senti tristeza, depressão, melancolia. Não era a melancolia da pobreza, mas da doença. Pensei: “O que vou conversar com essas pessoas, o que posso saber sobre o sofrimento pelo qual estão passando?” 80% eram evangélicos e acho que já estavam imaginando que eu estava ali para algum tipo de conversão. Então expliquei para eles que o Dharma, os ensinamentos budistas, estava além da religião e das nossas crenças mundanas. Nas palavras do Buda, não existem separações: nem católicos, nem evangélicos, nem espíritas ou mesmo budistas.
Foi assim que introduzi a leitura do Shoshinge, o texto principal de nossa meditação cantada, escrito por Shinran Shonin no século XIII e entoado por milhares e milhares de vozes ao longo desses séculos. Nessa meditação, recitamos de várias maneiras o nome do Buda Amida, Namo Amida Butsu, um nome que abraça a todos sem distinções e dualidades. Como fazê-los perceber a infinita luz de Amida a não ser recitando, sentindo o Shoshinge?
No Shoshinge, a respiração acompanha a recitação. Todos nós respiramos. Respirar significa estar vivos. Então propus aos meus “amigos desconfiados” que ensaiássemos no canto conjunto. Quando cantamos, o oxigênio entra e toca cada parte do nosso corpo de forma espontânea e alegre. O oxigênio é o alimento das células. Façam esse teste: o ar que entra, já não é o mesmo ar, ele se transforma dentro de nós e nós o transformamos. Essa é a experiência da impermanência nos nossos corpos, aquilo que é, quando respiramos, já era.
Em vez de pensarmos nesse exato momento qual o pensamento correto, a palavra correta, a postura correta, a ação correta, o modo de ser correto, atenção correta, a concentração correta, simplesmente recitamos o Nembutsu de forma espontânea e direta para entrar em contato puro com o Caminho óctuplo. O Namo Amida Butsu pode ser recitado a qualquer momento, em qualquer lugar, nos colocando em unidade com tudo a nossa volta.
Olhei para cada rosto daquela sala e consegui ver leveza e alegria, o despertar para o aqui e agora em transformação do nosso corpo-mente No Budismo, o ensinamento do Buda qualificado como ehi-passika, nos convida para “vir e ver” e não “vir e acreditar”. Essas pessoas 80% evangélicas vieram e viram o Namo Amida Butsu, como os jovens que vêm ao Templo todos os finais de semana de agosto da quermesse. Mas essa história ainda vou contar para vocês.
Namandabu Namandabu Namandabu
(Alexandre, tenha calma, recite o Nembutsu para experimentar o brilho da mente de diamante do Buda Amida sobre você. Não tenho dúvida de que você sentirá isso.)
Publicado por: Monge Sato
Expandindo fronteiras

Também estive em Berkeley, nos EUA, onde conheci o Center for Buddist Education. O motivo era um encontro presencial dos alunos do Curso online de Shin Budismo da Terra Pura. Além dos alunos, principalmente americanos, havia uma monja índia do Hawai e um monge do Nepal, monges do Shin; um acadêmico zen budista americano e um monge-artista tibetano, que fez uma oficina sobre mandalas. Todos eram a visível demonstração da diversidade cultural e étnica do Budismo da Terra Pura hoje, assim como do próprio Budismo no Ocidente. Talvez essa diversidade ainda possa ser vista como exótica. Mas pouco a pouco entendo que o budismo possa nos ajudar a descobrir uma linguagem comum, uma linguagem de aproximação entre essas culturas diferentes que estão se misturando.
Tudo isso me levou a refletir sobre a nossa comunicação hoje. Porque as nossas palavras têm se mostrado tão imperfeitas? Penso na internet, que conseguiu apenas nos reunir tecnologicamente, mas que parece ter aumentado os nossos problemas de comunicação. Por isso, o Dharma, o Nembutsu, pode nos ajuda a ir além das palavras e nos auxiliar nessa linguagem comum.
Podemos ir além da filosofia, da religião, da ciência para encontrarmos essa linguagem comum nos ensinamentos budistas. Vamos buscar essa intimidade que sentimos falta, que foi substituída pela desconfiança, competição e solidão no nosso mundo.
Bom estar de novo compartilhando o Dharma nesse espaço e mesmo distantes, posso sentir essa presença de vocês nos comentários. Vamos construir juntos esse nosso espaço.
Publicado por: Monge Sato



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