Blog do Monge

Não tenho tratado bem do blog, como gostaria.  Esse relacionamento com vocês é muito importante como um meio de autoconhecimento, de descoberta das próprias debilidades.  é no relacionamento com os outros que se revelam as limitações do nosso próprio poder – jiriki -  e a graça do Outro Poder – tariki.

Vou compartilhar com vocês a retrospectiva das últimas semanas e meditar sobre o cotidiano.

Estive mais de uma semana em São Paulo acompanhando uma pequena intervenção cirúrgica sofrida pela Cris.  Foi tudo bem, não havia resquícios malévolos e ela já está restabelecida.  Mas senti os meus traumas – limitações cármicas – em relação à doença, internações hospitalares e intervenções cirúrgicas, advindas de experiências pessoais muito fortes. 

O 43º Congresso dos Jovens Budistas que se realiza pela primeira vez em Brasília nos dias 18 e 19 de julho está se aproximando.  Aliás, muitos de vocês podem participar se tiver até 30 anos.  Existe uma equipe na organização mas fico inquieto, perguntando por tudo – como estão as inscrições? o patrocínio? o alojamento? as refeições? a passagem dos monges? as bandas de música? a impressão da programação? os cartazes? -  e às vezes correndo atrás.  Outra limitação cármica do jiriki, cuja origem está no meu passado de organizador de movimentos, estudantil, político e social.  Percebo o ego da arrogância de ter participado da época gloriosa da União Nacional de Estudantes, dos movimentos anti-ditadura, fundação da CUT e do PT, da formação do Governo Lula.  Só a intervenção do Tariki, constituído pela vontade e ação múltipla de muitos colaboradores viabilizará o Congresso.  Vai ser a mesma coisa com a Grande Quermesse de Agosto nas suas dez noites intensas.  é preciso que o jiriki não atrapalhe muito o Tariki, basta estar atento, concentrado e desenvolver o esforço adequado.

E hoje começa mais um curso de meditação e introdução ao budismo no Templo que ocupará todo mês de julho, às terças, quartas e quintas-feiras, turmas matutina e noturna.  Conto com uma preciosa equipe competente de assistentes, mas sinto o peso da responsabilidade da introdução de meios compassivos novos - hoben – para difundir o Jodo Shinshu no Brasil.  Só fiquei um pouco aliviado quando senti outro tipo de responsabilidade e de limitação cármica na visita de dois jovens neste último fim de semana.  Um com vinte e quatro anos era o 18º herdeiro de um templo no Japão, na província de Yamaguchi e a jovem esposa de um outro monge que está temporariamente em Presidente Prudente, mas vai retornar ao Japão, também como 18º descendente de um templo.  Quase mil anos de budismo, acumulados e sedimentados.  Senti que eles ficaram visivelmente impressionados com o que estamos fazendo por aqui.

Ufa.  Que possamos viver plenamente cada momento da nossa vida, acreditando em uma boa causa e refletindo sobre as nossas limitações cármicas.  Que sejamos bem ocupados - trabalhando, estudando, amando, cuidando da família e dos outros - mas que o tempo não nos pressione e aprisione, que nos dê liberdade para o nosso crescimento e transcendência na direção da Compaixão e Sabedoria.  Que possamos renascer a todo momento.  Isso é Jôdo Shinshu.

Se ainda der tempo, assistam ao filme japonês chamado “A Partida” que foi premiado como filme estrangeiro do ultimo Oscar.  é surpreendente e sublime, mostrando a sua inspiração budista.  Não pude conter as lágrimas de emoção.  Podem comentar aqui, é uma forma de manter ativo o blog.       



Publicado por: Monge Sato

No blog anterior, a Camila disse que estava curiosa para conhecer as histórias myokonin. Vamos começar por Guenza:


"Guenza-san perdeu muito cedo o seu pai, mas a sua mãe viveu até bem depois.

Certa vez, a sua mãe disse: "Tenho vontade de comer batata."

E, Guenza-san respondeu: "Então, vou buscar algumas." E foi cavar batatas com um cesto de bambu nas mãos. Mas, quando chegou na roça, qual foi a surpresa ao ver uma outra pessoa cavando a terra para tirar as batatas de seu terreno. "Ladrão de batatas!" ―teve vontade de gritar. Mas, ao invés disso, Guenza-san voltou sorrateiramente para casa para que a pessoa não notasse a sua presença. Ele próprio não viu o rosto da pessoa. Provavelmente, como era um vilarejo pequeno, logo que visse o rosto da pessoa iria reconhecê-la. Se isso acontecesse, a marca de que essa pessoa era um ladrão iria ficar para sempre na sua memória. Por isso, não quis ver o rosto dela. Por outro lado, se a pessoa percebesse que Guenza-san havia descoberto a sua presença, a sensação de desconforto entre eles iria restar para sempre. Por essa razão, ele foi embora sorrateiramente para não descobrir quem era a pessoa nem fazer a pessoa perceber que ele o havia descoberto.

Porém, ao chegar em casa com o cesto vazio sem nenhuma batata, a sua mãe lhe perguntou: "As batatas ainda não estavam maduras?" E Guenza-san respondeu, sem nenhum apego: "Ah, parece que hoje não era a nossa vez de colher as batatas." Talvez, para Guenza-san, as batatas não tinham dono. Ele sabia que as batatas não eram nem dele nem de outra pessoa. As batatas não cresceram pensando em serem comidas por nós. E nós, acabamos comendo-as. Na verdade, temos de pedir perdão às batatas. Para as batatas, serem comidas pelo ladrão ou pelo Guenza implica no mesmo. São igualmente um incômodo para as batatas. A isso Guenza-san havia percebido. Aos olhos das pessoas, pelo Guenza ter cultivado com todo o esforço as batatas em seu terreno, elas seriam de sua propriedade, mas se pensarmos pelo lado das batatas, não passa de um grande incômodo. A priori, não existe quem tem a posse das batatas. Por isso, ele deve ter pensado: "Hoje, era a vez daquela pessoa colher as batatas. No dia seguinte, talvez terei chance de colher as batatas. Hoje, não era a minha vez."



Publicado por: Monge Sato

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